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“OITO
CANTEIROS DE OBRAS PARA A ÁFRICA”
ENTREVISTA
COLETIVA DE IMPRENSA DO SECRETÁRIO DE
ESTADO FRANCÊS
DA COOPERAÇÃO E DA FRANCOFONIA,
ALAIN JOYANDET
Paris, 19 de junho de 2008
Os Senhores não
têm me visto muito nos últimos
três meses. É normal, passei esse
tempo em campo! Faz exatamente três meses
que assumi meu cargo na rua Monsieur. Imediatamente,
a minha prioridade foi dar-me conta pessoalmente
da situação, avaliá-la:
medir igualmente as expectativas, com o mínimo
de idéia pré-concebida possível,
das populações dos países
do Sul que são nossos parceiros, singularmente
na África. Percorri portanto cerca de
vinte países – a maior parte deles
na África. Sobre cada um deles, tentei
lançar um novo olhar. Coloquei-me à
escuta de todos: responsáveis por trabalhos
de campo, dirigentes, empresários, professores,
jovens ou menos jovens. Após todos esses
encontros e todas essas viagens, faço
um diagnóstico:
- A África
está mudando, ela entrou inteiramente
na globalização. O crescimento
teve novamente início na África;
- A África pede a nossa presença;
ela deseja “mais França”.
Os africanos convidam-nos a permanecer na partida
que é jogada neste exato momento.
Essa partida
começou há apenas alguns anos…
O pontapé inicial foi dado com a chegada
dos países emergentes ao jogo econômico
africano. Sua vinda, sua temível eficiência
e seu comportamento exigem a nossa participação.
Eles abalam as concepções que
nós, europeus, tínhamos da Cooperação.
O Presidente da República e eu decidimos
olhar de frente esse continente que desperta.
Estamos, agora, prontos a empreender uma nova
política. Nós propomos aos africanos
um pacto fundado na reciprocidade, na confiança
mútua, no entendimento. Longe dos discursos
cheios de compaixão, nós desejamos
acompanhar a África que caminha, a África
que empreende, a África que tem confiança
em seu futuro.
Após
esses três meses de observação,
abro hoje portanto oito canteiros de obras.
Esses canteiros são ações
concretas que têm por objetivo reposicionar
a França no tabuleiro africano e enquadrar
a sua cooperação. Esses oito canteiros
baseiam-se em dois pilares: o desenvolvimento
econômico e a difusão cultural.
Mas, antes
de falar rapidamente desses canteiros de obras,
desejo dissipar um mal-entendido.
Ouve-se falar
muito, aqui e ali, que a França não
está à altura de seus compromissos
em matéria de ajuda para o desenvolvimento.
Nunca fazemos o suficiente! A França
não tem por que envergonhar-se de sua
atuação: estamos ainda entre os
primeiros financiadores do G-8 em termos de
ajuda pública para o desenvolvimento
(APD). E mais, anuncio aos Senhores que, a partir
do próximo ano, vamos aumentar em 25%
nossos compromissos – através da
Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD)
– para com os países do Sul. A
África será a principal beneficiária
dessa quantia, que será de 1 bilhão
de euros.
A nosso pedido,
a Agência Francesa de Desenvolvimento
vai portanto acrescentar um bilhão de
euros aos 3 bilhões que concede todo
ano aos nossos parceiros do Sul. A estrutura
financeira da Agência permite-lhe isso.
A AFD possui recursos à altura das ambições
da França.
Pretendemos,
com isso, modificar a estrutura de nossa ajuda.
Para nós, trata-se de entrarmos na era
da parceria. Queremos uma relação
pragmática fundada na responsabilidade
mútua, no “falar com sinceridade”,
numa exigência de respeito à palavra
dada. É apenas com esta condição,
creio, que a França aproveitará
o formidável vento de renovação
que varre agora o continente africano.
A África
possui verdadeiros tesouros de talento e dinamismo
e está aberta para o mundo. No entanto,
o crescimento sustentável no continente
há uma dezena de anos não consegue
satisfazer a imensa massa de indivíduos
que pedem empregos. Com o primeiro canteiro
de obras que proponho, a França fará
com que as linhas se desloquem: ao incentivar
ainda mais as empresas francesas a investir
na África e ao oferecer os meios para
o financiamento das iniciativas das novas gerações
de africanos que queiram criar sua própria
empresa. Nossa prioridade, portanto, é
apoiar o setor privado: é nele que se
encontram os empregos, a inovação,
o berço de um crescimento sustentável
e, portanto, o do desenvolvimento.
O noticiário
internacional lançou o projetor sobre
nosso segundo canteiro: a retomada da agricultura
africana. Como disse o Presidente da República,
estamos fazendo disso uma das prioridades de
nossa Presidência da União Européia...
Respondendo rapidamente às necessidades
prementes da população, vamos
favorecer o surgimento de políticas agrícolas
soberanas e sustentáveis no continente.
É preciso conceder novamente à
agricultura de víveres o lugar que lhe
cabe e que perdeu sem razão nos últimos
anos! Cada país africanos deverá,
assim, tender para a autonomia alimentar. Com
esse objetivo, propusemos colocar à disposição
desses países uma “facilidade econômica”.
Nosso terceiro
canteiro – que soa como um desafio na
África, diz respeito ao papel das mulheres.
Elas são a chave para o desenvolvimento.
As mulheres com escolaridade enviam seus filhos
à escola, mantêm o cordão
da bolsa e revelam-se –, como no microcrédito,
por exemplo – muito dinâmicas. Em
nossos projetos de desenvolvimento, vamos atribuir-lhes
um papel particular. Este é o meu compromisso.
O quarto canteiro
é particularmente caro para mim. De todos,
ele é, hoje, o que deu o melhor resultado:
anuncio-lhes a implementação de
uma ação concreta, calculada,
balizada. Triplicaremos em 4 anos a presença
dos voluntários internacionais no continente.
Não existe acaso nos grandes números:
quanto mais aumentarmos o número de cidadãos
franceses enviados como voluntários à
África, mais veremos aumentar as chances
de ver nossos projetos se concretizarem. Esse
investimento humano é sinônimo
de atividade econômica, emprego, desenvolvimento
da África e de irradiação
pelo continente. Também é uma
maneira de aumentarmos de modo significativo
e natural o uso da língua francesa no
exterior. Hoje, apenas 3 jovens a cada 10 que
postulam uma missão no exterior partem
efetivamente. Vamos reorganizar, estruturar
e valorizar esse voluntariado. Vamos também
propor a recém-aposentados que compartilhem
seus conhecimentos, sua experiência unindo-se
ao entusiasmo dos jovens voluntários,
especialmente na área agrícola.
São, portanto, 15.000 voluntários
internacionais (ao invés de 5.000 hoje)
que iremos recrutar e enviar em campo.
Com nosso
quinto canteiro, esperamos responder às
mesmas expectativas, apoiando-nos também
nas ONGs. Porque a cooperação
francesa deseja trabalhar em estreito entendimento
com esses parceiros independentes, que desenvolvem
uma outra forma de perícia, complementar
à nossa. Queremos acompanhar as ONGs
francesas em seu dinâmico crescimento.
Pois o painel das ONGs francesas tem sido, no
nosso entender, excessivamente modesto se o
compararmos às potentes organizações
anglo-saxãs ou alemãs. Faremos
transitar pelas ONGs uma parcela importante
de nossa ajuda pública para o desenvolvimento.
Por ser a
presença francesa também cultural,
dedicamos igualmente um canteiro à Educação
e à língua francesa. O ensino
é essencial para a formação
dos futuros cidadãos africanos. A formação
profissional também é uma das
chaves para o dinamismo das empresas africanas.
Com 84 milhões de estudantes e mais de
400.000 professores, o francês é
a segunda língua mais ensinada no mundo.
Trata-se de um capital considerável.
O aprendizado da língua constitui também
um trunfo para a África: uma língua
de intercâmbio regional e internacional,
uma poderosa alavanca de crescimento econômico.
A prova disso é o fato de países
anglófonos, como a Tanzânia, ou
lusófonos, como Moçambique, desejarem
aderir à Francofonia institucional. Precisamos
cultivar nossa língua comum para além
de suas fronteiras históricas!
Para o brilho
da França, para o intercâmbio e
a circulação de idéias
e imagens, a França dispõe de
trunfos: nosso audiovisual externo, com a TV5
Monde, a France 24 e a RFI, para citar apenas
os principais, são formidáveis
instrumentos de irradiação e abertura
para o continente. Estou convencido de que a
presença das vozes francesas, tanto nas
ondas de rádio e televisão quanto
na Internet, é a melhor garantia de nossa
influência no mundo a longo prazo. É
realmente nesse setor que será disputada
a batalha de amanhã: o das imagens e
da informação. Não podemos
ficar ausentes dessa competição
das imagens. As equipes de Alain Pouzilhac estão
em condições de harmonizar, reforçar
e valorizar a ação de nossos diferentes
órgãos da mídia no exterior.
Este é o sétimo e importante canteiro.
Por fim, o
oitavo e último canteiro já foi
anunciado pelo Presidente da República
na cidade do Cabo em fevereiro passado: ele
diz respeito à nossa presença
militar no continente. Apresentando o Livro
Branco da Defesa, em 17 de junho, ele especificou
a nova orientação que pretende
dar a nossas relações de defesa
com o continente, no sentido de uma cooperação
reforçada, tendo como objetivo ajudar
a África a dotar-se dos instrumentos
para sua própria estabilidade. Nossa
ambição é acompanhar os
países da África em sua transição
rumo a uma maior autonomia e à integração
regional. A longo prazo, desejamos permanecer
como seus parceiros ajudando-os ao mesmo tempo
a assumir sua própria defesa. A revisão
desses acordos está em curso, conduzida
pelo Ministério das Relações
Exteriores e Européias conjuntamente
com o Ministério da Defesa.
Como
os Senhores vêem, o tempo corre e esses
temas me apaixonam. Tudo o que vivi na África,
pode-se notar nos outros países emergentes.
Estive há 2 semanas no Vietnã
e há 2 meses no Haiti e, a cada vez,
percebi as expectativas com relação
ao nosso país. Nossa cooperação
deve dar uma virada determinante. Estamos prontos...
(...)
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