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América Latina

ENTREVISTA DO MINISTRO FRANCÊS
DAS RELAÇÕES EXTERIORES E EUROPÉIAS, BERNARD KOUCHNER,
PARA “LE JORNAL DU DIMANCHE”

Paris, 6 de julho de 2008


Pergunta : Quando e como o Senhor soube da libertação de Ingrid Betancourt?
R.: Por volta das 20h30, na quarta-feira à noite. Foi Astrid, sua irmã, quem avisou ao meu diretor de gabinete. Imediatamente, falei com Jean-David Levitte, no Eliseu, pois não era possível falar com o Presidente naquele momento. Após algumas verificações, encontramo-nos no Eliseu, com o Presidente.

P.: O Senhor dispunha de sinais indicativos de que essa operação de libertação estava acontecendo?
R.: Sim, nós tínhamos alguns sinais de convergência. Nós sabíamos há meses que um tal de César (chefe da unidade encarregada da guarda de Ingrid Betancourt) estava sob intensa vigilância. Há algumas semanas, nós pensávamos ter, aproximadamente, localizado Ingrid. Desde a minha última visita a Uribe, nós sabíamos realmente que estava sendo preparada uma operação sem conhecermos a data ou a natureza. Sabíamos também que o círculo em torno de César estava se fechando. Nosso pavor era que uma operação militar colocasse a vida dos reféns em perigo.

P.: Por que então, há alguns dias, foi enviado um emissário francês para tentar um encontro com Cano, o número 1 das FARCs?
R.: Ora, porque sempre tentamos todas as possibilidades! Nós fizemos tudo o que pudemos. Foi por isso que fizemos contato com o Presidente Chávez, mas também com o Presidente equatoriano Rafael Correa. É claro que o Presidente Uribe ficou algumas vezes irritado por passarmos por canais que lhe eram hostis. Mas nós o mantínhamos permanentemente informado. Foi o que possibilitou chamarmos atenção para os reféns. E também conseguir a libertação de dois reféns em janeiro e quatro em fevereiro.

P.: Um órgão de imprensa suíço fala de uma libertação comprada. A França deu dinheiro às FARCs?
R.: Claro que não. Eu, pelo menos, nunca ouvi falar de dinheiro. O Presidente Uribe não faz menção a nenhum dinheiro. E, falando muito claramente, não houve dinheiro francês. Essa operação “comando” foi apenas uma operação de infiltração, hábil e longamente preparada.

P.: Essa libertação não seria uma negação da linha francesa, que é favorável ao diálogo com as FARCs?
R.: Que idéia! Uma “negação” da política francesa... Vamos falar seriamente. Ingrid Betancourt estava detida desde 2002. Com a eleição do Presidente Sarkozy, as iniciativas multiplicam-se e, finalmente, os reféns deixam de ser apenas uma questão interna colombiana. A partir de maio de 2007, ela tornou-se uma questão de toda a América Latina e do mundo inteiro. Esse foi o sucesso do envolvimento de Nicolas Sarkozy, da diplomacia francesa, dos comitês de apoio que víamos freqüentemente, mas, em primeiro lugar, da extraordinária família Betancourt. É claro que Jacques Chirac, Lionel Jospin e Dominique de Villepin quiseram fazer coisas, houve tentativas. Mas elas não foram coroadas de sucesso. Eles também queriam fazer disso uma causa internacional e libertá-la, mas não funcionou. Foi a partir do momento em que decidimos “queimar todos os cartuchos” que a questão tornou-se internacional. A partir de maio de 2007, o Presidente, a célula diplomática do Eliseu, o Quai d’Orsay e eu mesmo, estivemos com todos os presidentes da América Latina. Nós falávamos dos reféns todo o tempo e essa agitação, que algumas vezes foi criticada, deu resultado.

P.: A França vai continuar a se envolver no conflito colombiano?
R.: Continuaremos a tomar todas as iniciativas para fazer com que libertem os outros reféns. Aliás, encontrei-me na quinta-feira em Bogotá, uma vez mais, com os familiares dos reféns. Trata-se de uma causa internacional.

P.: O que o Senhor acha das declarações de Ségolène Royal sobre Nicolas Sarkozy?
R.: Tenho vergonha por ela. Por que disse isso? De modo geral, os ataques que sofremos são particularmente odiosos. Antes dessa libertação, havia pessoas que diziam que nós fazíamos muito por alguns e não o suficiente por outros. Nós nos mantivemos obstinados.

P.: Num contexto pessoal, o Senhor pode nos contar a sua missão para ir buscar Ingrid?
R.: Eu já conhecia Ingrid há muito tempo. Sabia que era uma pessoa apaixonada, viva, até vibrante e sobretudo incansável na tentativa de convencer. E a reencontrei tal qual a havia conhecido. Ela estava aos pés do avião, maravilhosamente digna, ereta, serena, frágil e tão forte ao mesmo tempo. Ela tinha essa mesma postura, radiante. Evidentemente, quando a vi no alto da passarela, foi um momento muito emocionante. Vê-la abraçar os filhos era algo mágico. Nós tínhamos esperando tanto por esse momento.

P.: Quais foram as primeiras palavras que trocaram?
R.: Ela me disse: “Meu amigo Bernard!” e nos abraçamos. Eu lhe disse: “Finalmente. Eis o milagre!” Quem teria pensado, quatro dias antes, que isso iria acontecer? Condenavam o que fazíamos. Ninguém dava crédito ao Presidente Uribe. Na França, era de bom tom criticar, acusar de inação, não compreender que, eleito democraticamente, ele guerreava contra as FARCs. E continua.

P.: Qual era o ambiente no avião de volta?
R.: Nós ouvimos Ingrid e tentamos rir um pouco. É disso que ela gosta. Ela já nos tinha feito, na embaixada, numa pequena roda e em espanhol, o relato de sua libertação. Mas o que mais admirei foi essa reunião familiar no avião. Ela, com a mãe e os filhos. Era só felicidade, uma formidável demonstração de amor.

P.: Que lugar ocupa Ingrid Betancourt agora na sociedade francesa?
R.: Ela ocupará um lugar na Colômbia, sem sombra de dúvida. Na França e no mundo, é uma mulher que se tornou um modelo de resistência e dignidade, um monumento de coragem.

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