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DIA
DE COMEMORAÇÃO NACIONAL
DA MEMÓRIA DO TRÁFICO
NEGREIRO, DA ESCRAVATURA E DE SUAS ABOLIÇÕES
DISCURSO
DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA FRANCESA,
NICOLAS SARKOZY
Paris, 10 de maio de
2008
Senhoras e Senhores,
Estamos
reunidos, neste 1º de maio de 2008,
para celebrar o dia de “Comemoração
Nacional da Memória do Tráfico
Negreiro, da Escravatura e de sua Abolição”.
Neste
dia de homenagem solene da Nação,
devemos todos ter em mente os valores
que a nossa República personifica,
valores dos quais devemos ter orgulho.
Foi em nome desses valores de liberdade,
igualdade e fraternidade que mulheres
e homens lutaram pela abolição
da escravatura.
Olhemos
essa história tal qual ela é.
Olhemo-la lucidamente, pois trata-se
da história da França.
Em 1789, o princípio universal
da dignidade humana foi colocado: “Todos
os homens nascem livres e permanecem
livres e iguais em direitos”.
A força dessa mensagem não
deveria sofrer qualquer exceção.
No entanto, ela não foi suficiente
para a emancipação dos
escravos.
Na
época, numerosas vozes elevaram-se,
como a de Rousseau, do Abade Grégoire
e do Abade Raynal, para defender esses
princípios, para denunciar os
horrores da escravidão e condenar
o comércio triangular dos negros.
Essas vozes não foram ouvidas.
Não podemos esquecer o humanismo
e o filantropismo do Século das
Luzes.
A
história da escravatura é
a história do combate dos abolicionistas
contra as resistências econômicas
e o conservadorismo político
da época. Alguns homens honraram
os valores da República: Dimitile,
Cimendef, a Mulata Solitude, etc. Eles
eram escravos. E foram os primeiros
a combater sua opressão. Foram
longos esses anos de luta para levar
a termo o que não é outra
coisa senão um crime contra a
humanidade. Alguns combates marcaram
os espíritos, como o de Delgrès,
em Guadalupe, e de Toussaint Louverture,
em São Domingos.
A
escravidão é uma tragédia.
Uma tragédia que castigou de
forma duradoura continentes inteiros.
A escravidão é uma ferida.
Uma ferida profunda que ainda pesa em
nossas consciências. As memórias
carregam o peso dessa história.
E eu sei bem que ainda hoje existem
desigualdades, que têm suas origens
nessa dolorosa herança.
Devemos
ter a coragem de falar disso, para assumirmos
juntos nossa história. O período
colonial e a abolição
da escravatura são vistos freqüentemente
como histórias externas, eu diria
até periféricas. No entanto,
elas fazem parte intrínseca da
história da França. Dessa
história, devemos poder dizer
tudo. Recusar a compreensão de
seu próprio passado às
gerações oriundas dos
territórios que conheceram a
escravidão seria acentuar o retraimento
identitário em detrimento do
modelo republicano. A partir dessa dolorosa
história, a República
foi construída. Ela foi construída
tendo como base esses valores de humanidade
e respeito aos direitos humanos. Dessa
história nasceram culturas e
culturas no plural, que fazem parte
de nossa cultura comum, no singular.
A literatura que decorre disso tornou-se
uma referência para o mundo.
No
momento em que lhes falo, penso em Aimé
Césaire. Guardaremos em nossas
memórias e nossos corações
sua lembrança e sua marca em
nossa história. Sua advertência,
aliás, continua nos assomando.
Ele afirmava que “uma civilização
que se mostra incapaz de resolver os
problemas que o seu funcionamento suscita
é uma civilização
decadente. Uma civilização
que opta por fechar os olhos aos seus
problemas mais cruciais é uma
civilização ferida. Uma
civilização que renega
seus princípios é uma
civilização moribunda”.
A comoção provocada pelo
falecimento de Aimé Césaire
mostra a que ponto estamos sempre em
busca de nossa própria história.
Essa
história deve ser inscrita nos
livros escolares, para que nossos filhos
possam compreender o que foi a escravatura:
para que nossos filhos possam avaliar
os sofrimentos que a escravidão
gerou, as feridas que deixou na alma
de todos aqueles que nada é capaz
de libertar desse passado trágico.
O
tráfico de negros, a escravidão,
assim como a sua abolição,
serão introduzidos nos novos
programas da escola primária
já no início do próximo
ano escolar.
Desejo
também que essa história
possa ser abordada a partir do estudo
de obras literárias, como as
de Aimé Césaire e é,
portanto, no âmbito dos novos
programas do ensino médio que
desejo a inscrição da
obra de Aimé Césaire.
Como
Presidente da República, faço
questão, ao decidir isso, que
os franceses compreendam essa parte
de sua história em suas dimensões
geográfica, cultural, econômica
e social, porque essa história
possui diversas dimensões, mesmo
que seja uma tragédia. E, pelo
fato de os franceses terem compreendido
essa história, ela se tornará
nossa história comum. A história
de todos os franceses e não só
de uma parte deles. (...)
Na
circular interministerial que o Primeiro-Ministro
dirigiu há alguns dias, a meu
pedido, a todos os órgãos
da administração, ele
lembrou o alcance da comemoração
nacional de 10 de maio. Mas, eu pedi
que as outras datas comemorativas locais,
tão importantes para a comunidade
de ultramar, façam parte integrante
dessa circular. Fiz isso porque sei
do apreço que os Senhores têm
pelo respeito a essas datas, que estão
ligadas à história de
cada um dos territórios ultramarinos.
Quero, portanto, que haja uma comemoração
mas que, ao mesmo tempo, reconheçamos
as datas importantes para cada um dos
territórios ultramarinos, de
modo a que cada um sinta-se respeitado.
A
data de 23 de maio – empenhei-me
nisso – se tornará um dia
comemorativo para as associações
que reúnem os franceses de ultramar
e que desejem celebrar o passado doloroso
de seus antepassados. Que me compreendam:
não é por ter me engajado
nisso que o faço. Foi por achar
que era justo que me engajei e, portanto,
que o faço. É nessa ordem
que as coisas funcionam.
Dentro
do mesmo espírito, o Centro Nacional
de Recursos sobre a História
da Escravidão, desejado pelos
historiadores, escritores e toda a comunidade
científica, anuncio-lhes, será
inaugurado muito em breve.
Pois
esta celebração não
deve ser apenas uma lembrança
histórica. Essa celebração
deve ser, para nós, a oportunidade
de dizermos que, infelizmente, a sujeição
continua existindo em nossas sociedades,
em quase todos os continentes. Milhões
de pessoas ainda são vítimas
do tráfico; elas permanecem privadas
de liberdade, submetidas a condições
de exploração brutais.
Essas formas modernas de escravidão
devem ser condenadas sem fraquejar.
Penso,
neste momento, na tragédia por
que passa o povo da Birmânia,
onde a comunidade internacional quer
ajudar o povo. E onde um regime eminentemente
condenável é capaz de
impedir o desembarque de víveres,
para permitir aliviar a miséria
provocada pelo ciclone que provocou
milhares de mortes e dezenas de milhares
de desabrigados. De uma certa maneira,
existe uma ligação com
o que celebramos hoje. É doloroso
constatar que, no século XXI,
a comunidade internacional não
pode, livremente, prestar socorro a
mulheres e homens como os Senhores,
como nós, devastados pela natureza
e que, ainda por cima, têm a dor
de possuir um governo que recusa a ajuda
da comunidade internacional.
Não
haverá paz no mundo se transigirmos
com o respeito à dignidade humana.
Neste ano de celebração
do 60º aniversário da Declaração
Universal dos Direitos do Homem, a França
deve defender a universalidade dos direitos
humanos diante das tentações
relativistas às quais sucumbem
alguns, em nome de tradições
históricas desviadas do caminho,
em nome de tradições culturais
caricaturais, em nome de tradições
religiosas que jamais existiram. Os
direitos humanos não devem ser
um privilégio reservado aos ricos.
Eles são a condição
para a emancipação do
desenvolvimento.
Aos
Senhores aqui, hoje, a vocês,
juventude vinda da França metropolitana
e de ultramar, a toda a juventude da
França que nos ouve, quero dizer
que a França, ao comemorar este
dia, pretende mostrar a que ponto o
combate pela liberdade de todos os homens
continua sendo profundamente atual.
Muito
obrigado e parabéns ao coral
infantil.
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