ENTREVISTA DO SECRETÁRIO
DE ESTADO
PARA AS RELAÇÕES EUROPÉIAS,
JEAN-PIERRE JOUYET,
PARA O JORNAL “20 MINUTES”
Paris, 16 de junho de 2008
“O Tratado
de Lisboa está suspenso”
Pergunta:
A Europa está em crise depois
do “não” da Irlanda?
Resposta:
Eu não diria que se trata de
uma crise, mas, antes, de um incidente
de percurso. Agora que o “não”
passou, é preciso dar à
Irlanda um tempo para reflexão.
Não se pode pedir aos irlandeses
que votem novamente, cabe a eles nos
fazer propostas.
P.:
Mas, qual é a solução,
se não um novo referendo?
R.:
Não existe solução
miraculosa, a margem é estreita.
É por isso que se deve realmente
dar um tempo para reflexão.
Por enquanto, a França deseja
que o processo de ratificação
chegue ao fim. O Tratado de Lisboa
está suspenso.
P.:
Como o Senhor analisa o “não”
irlandês?
R.: É
muito complicado analisar isso por
enquanto. Trata-se de um país
que passou de 10% de crescimento em
2000 a previsões em torno de
2% para 2008; isso deve ter interferido
na votação. Os dirigentes
irlandeses terão que nos dizer
qual a participação
dos problemas nacionais e europeus
nessa rejeição ao Tratado
de Lisboa. Serão necessários
também estudos de opinião
pública mais precisos para
analisar esse “não”.
P.:
O Senhor é favorável
ao desenvolvimento de uma “vanguarda
de países” que avancem
mais rapidamente do que os outros
na integração européia,
conforme propôs Elisabeth Guigou,
ex-ministra (PS) das Relações
Exteriores?
R.:
Nunca fui a favor de uma Europa de
duas velocidades. Agora que se conseguiu,
ao longo dos anos, reunificar a Europa,
esta não seria uma boa mensagem
a ser enviada aos povos. Podemos avançar
a duas velocidades a respeito de demandas
muito precisas de um Estado (como,
por exemplo o Reino Unido e a Polônia,
que manifestaram o desejo de que a
Carta dos Direitos Fundamentais não
seja obrigatória em seus países),
mas de maneira global. Não
quero uma Europa de primeira divisão
convivendo com uma Europa de segunda
divisão.
P.:
O Senhor acha que o “não”
irlandês irá causar dificuldades
à Presidência Francesa
da União Européia, que
começa em 1º de julho?
R.: Não,
mantivemos a agenda prevista: a França
quer avançar na luta contra
o aquecimento climático, a
energia, a imigração,
a agricultura e a alimentação
e, enfim, a respeito das questões
de defesa. Pretendemos abordar todos
esses temas ao longo das diferentes
reuniões do Conselho de Ministros
Europeus nos próximos seis
meses. O objetivo é obtermos
avanços no final do ano, inclusive
sobre a defesa européia, o
assunto mais sensível com relação
aos irlandeses, que prezam a sua neutralidade.
P.:
Os eslovenos que presidem a Europa
até o fim de junho parecem
céticos e consideram “arriscado”
afirmar que o Tratado poderá
ser salvo…
R.:
Os eslovenos
são prudentes, mas cumprem
com seu papel de presidentes. No Conselho
Europeu de 19 e 20 de junho, precisamos
chegar a um compromisso a respeito
da ratificação, embora
os checos, ao que se evidencia, precisem
de um tempo para reflexão.
Como é de hábito, vamos
procurar algo que possa acomodar todo
mundo e deixar as opções
abertas.