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Europa

ENTREVISTA COLETIVA DE IMPRENSA POR OCASIÃO DO LANÇAMENTO DA
TEMPORADA CULTURAL EUROPÉIA

DISCURSO DO MINISTRO DAS RELAÇÕES EXTERIORES E EUROPÉIAS,
BERNARD KOUCHNER

Paris, 3 de junho de 2008


Fui encarregado - e o farei da forma como deve ser a Presidência Francesa: com humildade - de apresentar-lhes a Presidência Francesa, que terá início em 1º de julho. Até lá, não somos os responsáveis, ainda é a Presidência Eslovena. Nossos amigos eslovenos, que, aliás, o fazem tão bem - e é um trabalho pesado – é que preparam e organizam o processo político e diplomático de uma União Européia que compreende 27 países.

Parece pouco, mas aqueles que se encontram aqui, como Jorge Semprun, que é um grande europeu, que foi ministro da Cultura do governo espanhol, sabem não é a mesma coisa sermos 13 ou 15. Foi diferente quando éramos 6, 9, 12, 15 e 27.

27 países representam uma grande vitória, mas também uma maneira de levar a sério as opiniões dos outros. O que está em jogo é um desafio permanente e um verdadeiro combate contra si mesmo. Acredita-se ter razão, começa-se por expressar firmemente suas idéias e propostas, mas não é assim que se deve lidar com isso. Não é assim que a Presidência Francesa pretende ouvir os outros.

O modelo é a temporada cultural européia e é a primeira vez, desde a criação da Europa, que essa temporada cultural européia acolherá os outros em casa, em nossa casa. Nós gostaríamos de fazê-lo também na política, impregnar-nos, compreender, ouvir a cultura dos outros. Vi a lista que lhes mostraremos em detalhe, ela é impressionante.

Começamos em 1º de julho e ao longo dos seis meses até 31 de dezembro haverá encontros, emoções, espetáculos, leitura, cinema, todas as artes estarão representadas. Elas virão à França e verão o que queremos fazer dessa Presidência, ou seja, estar à escuta dos outros.

Acusaram-nos muitas vezes de sermos arrogantes, acusaram-nos de termos posições prévias a respeito do funcionamento da Europa. Depois, num determinado momento, caímos do “alto”, porque a França votou “não”.

Agradeço aos espanhóis, pois votar “não” no referendo era sem dúvida um golpe cruel que dávamos à Europa. Outros haviam votado “sim”, igualmente por referendo, e foram nossos amigos espanhóis. Ao irmos vê-los e propor-lhes a idéia do Presidente da República de “Tratado Simplificado”, que hoje tornou-se o Tratado de Lisboa, o fato de os espanhóis terem aceito rever conosco o funcionamento - eles que voltaram amplamente pelo “sim” por referendo - para que a Europa não fique bloqueada, foi uma bela lição de humildade, sinceridade e invenção política.

É o que nós queremos fazer agora. Os temas que ocuparão a Presidência Francesa são temas pesados, como a energia, o clima, a defesa européia, a imigração, a política européia da agricultura, enquanto hoje, na reunião da FAO em Roma, numerosos chefes de Estado enfrentam dificuldades com os alimentos e a fome.

Haverá outras crises de alimentos que afetarão os mais pobres. Tudo isso, a Presidência francesa gostaria de tratar, repito, de maneira modesta. É preciso ouvir os outros, é preciso que, entre todos nós, os 26 mais a França, haja, na maior parte dos casos, o que se chama de consenso. Quanto ao resto, será preciso trabalhar para que se troquem opiniões.

Esse logotipo, que os Senhores verão durante 6 meses em todos os objetos, nos trens que nos levarem, pois queremos fazer com que todas as regiões participem da Presidência Francesa européia, representa essa mistura. Criticaram-nos muito, sobretudo durante a campanha do referendo, que agora já é passado mas da qual talvez os Senhores ainda se lembrem, de provocar o desaparecimento da identidade nacional na Europa. Não é nada disso. A identidade nacional não desaparece na Europa, ao contrário, ela revive na Europa. Ela propõe, ela convence o resto da Europa e foi o que quisemos fazer com esse logotipo, no qual, como os Senhores poderão notar, a bandeira européia é um pouquinho maior do que a bandeira francesa.

Mas, a Europa não desapareceu nas cores nacionais, deu-se o contrário. Juntos, um e outro tornam-se mais engrandecidos, um e outro expressam o que há de melhor neles.

Acho que a melhor ilustração desse belíssimo quadro “Grand Palais”, onde essas obras de Richard Serra são um milagre de equilíbrio com seu peso de 78 toneladas, acho que a Temporada Cultural Européia é o exemplo do que queremos fazer em matéria de política. Não digo aos especialistas da Cultura que, apesar de tudo, é mais fácil na cultura do que na política, o que penso firmemente. Mas, será o que irá nos preceder e, talvez, o que durará mais do que as decisões políticas.

Muito obrigado.

 
 

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