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Europa

UNIÃO PELO MEDITERRÂNEO
ARTIGO DO MINISTRO FRANCÊS DAS RELAÇÕES EXTERIORES E EUROPÉIAS,
BERNARD KOUCHNER, PUBLICADO NO JORNAL “LE MONDE”

Paris, 11 de julho de 2008

Europa: o futuro passa pelo Mediterrâneo

Em política, as maiores idéias são sempre as mais simples; são elas que encontram eco na alma dos povos, na história, no sonho compartilhado. A união da Europa, o encontro das culturas e das religiões, a construção de uma ordem internacional fundada na paz e no direito, a solidariedade: cada uma dessas utopias realizadas nasceu de um sonho antigo.

O projeto de União pelo Mediterrâneo, lançado pelo Presidente da República logo após a sua eleição, faz parte da mesma visão. A idéia é evidente: reconciliar finalmente as duas margens desse mar, unidas e dilaceradas por mil sobressaltos da história, hoje confrontadas às mesmas esperanças e aos mesmos perigos. A idéia é evidente e é aí que reside a sua grandeza.

O Mediterrâneo está situado no coração de todas as grandes problemáticas deste início de século. Desenvolvimento, migrações, paz, diálogo entre civilizações, acesso à água e à energia, meio ambiente, mudança climática: é no sul da Europa que nosso futuro está em jogo.

A idéia é evidente, mas levou muito tempo para ser colocada em prática. Já em 1995, o processo de Barcelona dava uma primeira resposta. Suas contribuições estão longe de ser desprezíveis, mas ele não correspondia mais às expectativas e dava a impressão de ter sido confiscado pelos europeus. Cerca de quinze anos mais tarde, a Europa ainda não tem uma idéia exata de sua margem sul. Foi por isso que, em um ano, nós multiplicamos as iniciativas junto a todos os nossos parceiros, tanto no norte, quanto no leste e no sul desse mar comum.

Toda a diplomacia francesa foi mobilizada. Os obstáculos eram inumeráveis. Foi necessário convencer nossos parceiros espanhóis e italianos de que a França não estava fazendo pouco do Processo de Barcelona mas, ao contrário, desejava relançá-lo; empenhamo-nos nisso desde os primeiros dias, tanto em Roma quanto em Portoroz por ocasião do encontro dos Dez Europeus do Mediterrâneo. Convencer a Alemanha de que esse projeto não estava voltado para a Europa; este foi o acordo de Hanover, entre Angela Merkel e Nicolas Sarkozy, reconhecendo uma evidência: o Sul, assim como a França, tinha necessidade de Europa. Convencer a Turquia de que essa ambição não substituía o desejo de Ankara de aderir um dia à União Européia. Convencer os países do Sul de que não íamos impor um modelo exclusivo, mas propor uma parceria equilibrada. Foi preciso lembrar que a presença de Israel era natural. Foi preciso enfim fazer com que todos compartilhassem um projeto de paz; foi o que me esforcei para fazer dia após dia e durante a reunião do Fórum Mediterrâneo de Argel, em junho. Por serem as mais simples, as grandes idéias são muitas vezes as mais difíceis de se fazer aceitar. Este foi o mérito de nossa diplomacia.

Este ano de diálogo enriqueceu o projeto de União pelo Mediterrâeno com as sugestões de cada um. Hoje ele está mais forte e sendo mais compartilhado. Pela primeira vez na história do Mediterrâneo, cerca de quarenta países da União Européia e do Mediterrâneo reúnem-se no dia 13 de julho em Paris, no mais alto nível, representados por seus chefes de Estado ou de Governo. Para quem conhece os ressentimentos desses povos emaranhados, este encontro já é um sucesso histórico.

A história novamente avança com ímpeto. Ela é levada pela nova e ainda frágil esperança de paz que se delineia. O Acordo de Doha sobre o Líbano, obtido graças à mediação do Qatar e da Liga Árabe, com base no plano em três pontos apresentado pela França, após as minhas numerosas missões a Beirute, constitui o melhor exemplo disso. Seria necessário citar também a trégua em Gaza, sob a égide do Egito, as conferências entre israelenses e sírios graças à mediação turca, ou as trocas humanitárias entre Israel e o Hezbollah. É preciso que esse impulso tenha continuidade, que a vida cotidiana dos palestinos, enfim, mude – seu sofrimento não é mais suportável – e que a negociação lançada em Annapolis entre Ehud Olmert eAbou Mazen chegue a bom termo para fazer calar o ceticismo crescente. A conferência de Paris sobre o Estado Palestino foi um sucesso, mas a tentativa deve ser transformada. A França pretende empenhar-se nisso ativamente durante a reunião de cúpula e fazer disso uma das prioridades de sua presidência européia, pois o processo de paz está sendo ameaçado. A União Européia deve desempenhar sem complexos todo o papel que lhe cabe no Oriente Médio. Essa reunião de cúpula também deve ser a da paz entre todos os mediterrâneos.

A história pedirá tempo. Nada estará terminado no dia 13 de julho à noite. Mas a União pelo Mediterrâneo já estará lançada, em torno de três princípios: um impulso no mais alto nível, com reuniões de cúpula a cada dois anos; uma parcecria, com uma secretaria e uma presidência paritárias entre o Norte e o Sul; uma prioridade para os projetos concretos, sejam eles ecológicos ou educacionais, estejam eles ligados às empresas ou à segurança, visem ao diálogo entre as culturas ou a uma melhor gestão das migrações. Esta é, sem dúvida, a mais forte originalidade dessa União: a prioridade concedida à ação, aos projetos, cujo efeito real cada um poderá avaliar. Estou confiante, já surgiram belíssimas iniciativas privadas.

Que ambição poderia ser mais nobre do que fazer do Mediterrâneo um dos mares mais limpos do mundo? Que ambição poderia ser mais elevada do que nos reunirmos em torno de nossa história, compartilharmos nossas culturas favorecendo os intercâmbios de estudantes no âmbito de um programa Erasmus mediterrâneo e multiplicando os intercâmbios de professores universitários e cientistas? Trabalhar em torno de um plano solar mediterrâneo para melhorar o acesso à energia pelas populações do Sul? Ajudar as pequenas e médias empresas do Norte e do Sul a investir no Mediterrâneo e criar empregos? Melhorar o compartilhamento de nossos meios de proteção civil diante das catástrofes naturais? Desenvolver estradas marítimas para ligar melhor o Mediterrâneo Oriental e o Ocidental? Cem outros projetos são possíveis e realizáveis.

Com eles, com todos os países-parceiros, com as organizações internacionais envolvidas, União Européia e União Africana particularmente, e com a Assembléia Parlamentar Euro-Mediterrânea, precisaremos continuar a inovar, encontrar idéias e financiamentos, inventar projetos. Precisaremos pensar grande, associar toda a boa-vontade dos países do Golfo até a África. Precisaremos sobretudo atuar em campo, em âmbito mais local, com projetos adequados às necessidades das populações. Devemos estar à altura dessa ambição histórica, devemos ser generosos, solidários, inventivos. Todos nós somos mediterrâneos de coração e de paz.

 
 

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