Ministério das Relações Exteriores.

Alain Resnais, um cinema experimental

Criador intransigente, incompreensível, distante dos modismos, Alain Resnais fez surgir o mistério do imaginário e do cotidiano de seus personagens.

Aos oitenta e seis anos, Alain Resnais recebeu o Leão de Prata da Mostra de Veneza de 2006 pelo filme Cœurs (Corações), um filme coral, sombrio e espirituoso, uma das obras mais originais do cinema francês, mesclando audácias formais, humor e profundidade. Itinerário de um cineasta singular.   

“Sou tímido e prudente mas, ao mesmo tempo, gosto de sentir o perigo”. Discreto e audacioso, Alain Resnais é um equilibrista que avança sempre mais e mais. Seu novo filme, Coeurs, é o grito perturbardor e crepuscular de um cineasta no auge de sua arte, preocupado com a mesma eterna questão: a irremediável solidão do homem no mundo moderno.

Cœurs segue o baile perdido de machões tragicômicos e, ao mesmo tempo, seus fracassos amorosos, embolorados e vistosos, em um bairro em plena reconstrução do 13º distrito de Paris. O filme é uma adaptação de uma peça de Alan Ayckbourn, dramaturgo inglês contemporâneo, que já o inspirara para fazer Smoking e No Smoking, em 1993, brilhantemente adaptado pelo casal de roteiristas Agnes Jaoui e Jean-Pierre Bacri [ver Label France n° 54]. Esses dois filmes, hilariantes e desesperados, um surpreendente exercício de estilo com atuações de tirar o fôlego – Sabine Azema e Pierre Arditi encarnam quase dez personagens diferentes – exploravam as repercussões de nossas escolhas e o peso do acaso em nosso destino em seu aspecto social e sentimental.  

Em seu último filme, Coeurs, premiado em Veneza, os personagens influem no destino uns dos outros sem se conhecer, nem mesmo se encontrar. Lambert Wilson e Isabelle Carré.

Negrume crepitante

Em Cœurs, os atores que interpretam os seis personagens em busca de calor humano fazem parte dos elencos dos filmes de Alain Resnais há mais de vinte anos: André Dussollier, Pierre Arditi, Sabine Azéma, Lambert Wilson… rostos familiares desenhados com a melancolia viva do cineasta, melancolia essa sempre combinada com incomparável inspiração e grande consciência do absurdo da vida.

Veterano da “casa Resnais”, Pierre Arditi compara os filmes do mestre aos quadros de Balthus: “Alain é um homem que pega a vida e a coloca de ponta cabeça para vê-la melhor. Reconhecemos alguns elementos, mas nada disso é natural.” André Dussolier é particularmente sensível à doce monomania de Alain Resnais pelo pintor italiano da Renascença Lorenzo Lotto, a ponto de exigir que seus atores imitem o estranho sorriso atravessado de todos os personagens de seus retratos...

A música também é objeto de escolha singular em sua obra: a melodia inquietante e meditativa do compositor contemporâneo Hans Werner Henze, em O Amor à Morte (1984), que pontua as interrogações de um homem que volta à vida depois de ter sua morte clínica declarada; ou as músicas populares e entusiasmadoras de Amores Parisienses (1997), seu maior sucesso de público, no qual as personagens expressavam-se, entoando grandes sucessos do cancioneiro francês. Em 2003, ele chegou até a fazer com que todos seus atores cantassem – entre eles os jovens Audrey Tautou et Jalil Lespers –, ressuscitando uma conhecida opereta francesa dos anos 1920, Pas sur la Bouche (Na Boca Não).   

Pas sur la bouche (2003)

Coeurs (2006)

Memória e história

Eclético, Resnais também é apaixonado pela pesquisa científica, tema central, por exemplo, de Meu Tio da América, de 1980, com Gérard Depardieu e Nicole Garcia, que ilustra, por meio da história de três “personagens-cobaias”, as teorias sobre o comportamento humano que o famoso biólogo francês Henri Laborit elaborou a partir do estudo de ratos.
A memória, entretanto, é a função cerebral  que  obceca Resnais: poucas pessoas sabem que esse cineasta de estilo refinado –  no limite do experimental – dedicava-se há dez anos à realização de documentários quando assinou o primeiro testemunho de destaque sobre a Shoah: Noite e Nevoeiro (1956),  acre e contundente como a verdade saída dos poços nauseantes da História.

Alain Resnais também perfura as horas sombrias do século XX com Hiroshima, Meu Amor (1959), com roteiro original de Marguerite Duras, em que o horror da bomba atômica faz eco à vergonha da colaboração francesa, tendo como pano de fundo uma história de amor impossível. Depois, com Muriel, Concerto para uma Mulher Só(1963), ele trata do episódio, ainda tabu, da guerra da Argélia. Esses dois filmes, que obedecem à lógica da memória e da percepção, foram aclamados pelos diretores da  Nouvelle Vague por revolucionarem “a escrita fílmica”.

Apaixonado pela capacidade de dissimulação que o ser humano desenvolve para ocultar suas fraquezas, Alain Resnais sempre foi muito atento com relação aos cenários de seus filmes, reflexo do artifício de nossas existências: uma cena de teatro em Mélo (1986), um castelo de opereta em A Vida é um Romance (1983), ou ainda as divisórias vistas de avião dos apartamentos parisienses, em Coeurs...

Cada um de seus filmes é um labirinto no qual nos perdemos de maneira consciente, para sair dele com um olhar mais intrigado, pronto para encarar as vicissitudes da vida. Graças, sem dúvida, ao desapego divertido de Alain Resnais, que gosta de repetir: “Não sou filósofo. E não quero, sobretudo, parecer sério demais”.

Marine Landrot,
jornalista da revista semanal de cultura Télérama