| Entrevista
com Yves Sintomer
“A democracia é
um regime sempre em questionamento”

Em
1º de maio de 2002, mais de um milhão
de franceses foram às ruas, em todo
o país,
para defender os valores da República
e da democracia que acreditavam estar ameaçados
pela chegada do candidato de extrema-direita
ao segundo turno das eleições
presidenciais.
Manifestantes brandem títulos eleitorais
durante o desfile em Paris.
O sistema
político francês está
hoje em crise? Yves Sintomer*, professor de
sociologia, prefere falar de uma crise de
legitimidade. Ele parece, contudo, ter iniciado
um processo de renovação graças
a novas formas de democracia participativa.
Diretor
adjunto do centro
Marc Bloch (Berlim),
Yves Sintomer também é
professor de sociologia na Universidade
Paris VIII e pesquisador do Centro Nacional
de Pesquisa Científica (CNRS).
Acaba de publicar La Peur de la démocratie.
Jurys citoyens, tirage ou sort et contrôle
populaire (O medo da democracia. Júris
populares, sorteios e controle popular/
ed. La Découverte, Paris, 2007) |
Qual
é a particularidade da democracia
francesa?
Como
todos os outros países europeus,
a França é uma democracia
parlamentar, diferente do regime presidencial
americano. A especificidade francesa,
- é a 5a República que
o deseja assim - é o fato de
possuir um Parlamento extremamente frágil
em relação aos de seus
vizinhos alemães, britânicos
e espanhóis, no que concerne
aos montantes disponíveis para
os parlamentares, o controle sobre a
ordem do dia, a possibilidade de criar
comissões parlamentares, a importância
simbólica que lhe é dada
pelo poder executivo, os mecanismos
de produção da lei (vaivém
entre as duas casas até que haja
acordo sobre os textos, controle do
executivo sobre os textos, etc.). A
França também é
o país onde há o mais
estreito recrutamento da classe política
em sua cúpula e sua profissionalização
é mais intensa.
Assim, a situação francesa
é paradoxal: a 5a República,
instituída em 1958, foi construída
em nome do equilíbrio entre os
poderes, mas, na verdade, a onipresença
do executivo não possui qualquer
contrapeso. Entretanto, a situação
melhorou um pouco nos últimos
trinta anos, graças ao papel
mais relevante da justiça: crescimento
do poder do Conselho Constitucional,
com a independência dos juízes
fortalecida.
Presença
no segundo turno da eleição
presidencial de 2002 de um candidato
da extrema-direita, aumento da abstenção,
redução do número
de filiados aos sindicatos e aos partidos:
a democracia francesa está em
crise?
De certa maneira, a democracia sempre
esteve em crise. É m regime sempre
em questionamento. Mais do que uma crise
da democracia, pode-se falar de uma
crise de legitimidade do sistema político
atual, que se manifestou com a chegada
ao segundo turno da eleição
presidencial de 2002, em 21 de abril,
do candidato da Frente Nacional, Jean-Marie
Le Pen. Durante essa mesma eleição,
o presidente em fim de mandato, Jacques
Chirac, obteve no primeiro turno apenas
19,9% dos votos, enquanto os candidatos
de partidos sem representação
no Parlamento somaram 29,6%.
Em 2005, a rejeição, por
referendo, do Tratado de Constituição
Européia interveio, após
a aprovação desse mesmo
tratado por 92% do Congresso (que reúne
as duas casas parlamentares, a Assembléia
Nacional e o Senado). Mais genericamente,
as pesquisas apontam que a confiança
nos políticos chegou a um nível
historicamente baixo. |
Como se explica
esse fenômeno?
Várias
razões se conjugam, o que vemos
também em nível europeu:
a incapacidade dos políticos
de sair da situação
de crises econômicas e sociais
de um outro modo, não por meio
de estratégias de crescimento
desiguais que atingem, sobretudo,
as camadas populares; crise da ação
pública tradicional, burocrática
demais; profissionalização
crescente da política que tende
a distanciá-la das energias
que poderiam alimentá-la; processos
de decisão que passam cada
vez mais por acordos de governança
entre Estados, tendendo a reduzir
o campo de ação do sistema
político clássico.
Enfim, em toda
a Europa, o sistema político,
do final do século XIX ao início
do século XX, organizou-se
em torno dos partidos de massa (partidos
social-democratas e democrata-cristãos,
por exemplo) que organizavam em torno
de si uma parte da sociedade. Hoje,
os partidos subsistem, mas perderam,
em grande parte, a função
de mediação que tiveram
entre a sociedade e o sistema político.
Em
que medida a democracia participativa
poderia dar uma nova legitimidade ao
sistema político francês?
Há
duas maneiras de se definir a democracia
participativa. Para a primeira, trata-se
de instaurar um diálogo direto
com os cidadãos - é o
que o eleito fazia antes -, mas em uma
outra escala (Internet, audiência
nacional, etc.) e, sobretudo, pela independência
em relação ao aparelho
partidário. É nesse sentido
que se fala de “debate participativo”.
A
segunda definição, mais
restrita, é implementar mecanismos
de inclusão dos cidadãos
na tomada de decisões. Não
se trata da democracia de vizinhança,
instaurada na França pela lei
Vaillant de 2002, que promovia uma participação
seletiva dos cidadãos. A França
é campeã da democracia
de vizinhança: temos provavelmente
mais conselhos de bairro do que todo
o resto da Europa! Mas, a participação
dos cidadãos restringe-se ao
nível micro-local. Ela é
praticada sobretudo na informalidade,
devido ao desdém dos franceses
por esses procedimentos. Resultado:
cabe aos eleitos fazer a síntese
das discussões, sem regra de
jogo precisa e sem ter que prestar contas.
A democracia participativa, por outro
lado, concede um verdadeiro poder de
co-decisão aos cidadãos,
encarregados de instaurar regras precisas
e que obriguem os responsáveis
a prestar contas. É bastante
provável que o fato de sair,
ao menos parcialmente, dos aparelhos
e dos debates internos da classe política,
seja um dos meios de despertar um novo
interesse das pessoas pela cultura política.
Ao mesmo tempo, corre-se o risco de
que isso seja feito através da
publicidade, com o candidato ou candidata
fazendo a síntese por conta própria
e acentuando a tendência de concentração
do poder de decisão no executivo
e no seu líder carismático.
A democracia participativa pode conceder
uma espécie de contra-poder aos
cidadãos e contribuir para a
redinamização da política,
mas é necessário também
que ela seja exercida em questões
bastante importantes e de um modo abrangente.
Entrevista
realizada por Jade Lindgaard
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