Ministério das Relações Exteriores

 

O que está em jogo nas próximas eleições?

Há vários meses, as questões sócio-econômicas (desemprego, poder de compra, desigualdades, etc.), são as maiores preocupações dos franceses. Reunião sindical sobre as más condições de trabalho (janeiro de 2007).

Emprego, aposentadoria, déficit público, falta de segurança, meio ambiente? Quais são as preocupações que os franceses têm em mente às vésperas das eleições presidenciais e legislativas de 2007? Análise de Pascal Perrineau.

Durante a eleição presidencial de 2002, além do desemprego, a questão da falta de segurança teve um papel de importância crescente ao longo da campanha. A surpresa da presença, no segundo turno, do candidato da Frente Nacional (Jean-Marie Le Pen), a eliminação da esquerda já no primeiro turno (e de seu candidato socialista Lionel Jospin) e a vitória da direita (Jacques Chirac finalmente reeleito com mais de 80% dos votos) devem ser relacionados ao peso dessa questão para a qual a direita era considerada mais confiável do que a esquerda.


Salão do emprego em Lyon,
em 2006.

O emprego, uma preocupação central

A alguns meses do fim de mandato presidencial de abril-maio de 2007, a situação mudou consideravelmente segundo pesquisas do barômetro político francês[1]. Elas indicam que, por trás do emprego, que continuou sendo a maior preocupação da primavera ao inverno de 2006, surge agora toda uma série de temáticas sócio-econômicas (alta dos preços, desigualdades) que colocaram a questão da segurança no lugar mais baixo da hierarquia das preocupações.

Em relação à primeira leva de pesquisas realizadas no auge da crise do Contrato do Primeiro Emprego (CPE)[2], a questão do emprego registrou um recuo significativo que pode ser explicado, em termos, por uma melhora dos índices de desemprego. As temáticas sociais mantiveram-se estáveis, em um nível elevado. Apenas os problemas de segurança e de meio ambiente registraram pontualmente um aumento significativo. Vê-se como fenômenos conjunturais (violência contra representantes das forças da ordem em alguns subúrbios, o debate iniciado por Nicolas Hulot em torno do Pacto Ecológico) contribuem consideravelmente para a promoção desta ou daquela questão.
Independentemente do emprego, outro tema sofreu uma forte queda: o do déficit público e da dívida do Estado. Esse tema, trazido à tona pela direita no início do ano de 2006, tende a perder força no meio da enxurrada de promessas eleitorais que, evidentemente, não contribuem para uma discussão salutar da questão da despesa pública.

Preferências partidárias

Se a questão do emprego visivelmente se destaca, independentemente do eleitorado, a segunda e a terceira preocupação variam de acordo com as tendências políticas: para os da esquerda, extrema-esquerda e para os sem preferência partidária, são os aumentos dos preços e as desigualdades que preocupam; para a direita, as preocupações são com a segurança e o déficit público. A educação e a pesquisa encontram-se, nos dois casos, em quarto lugar. Enfim, para a Frente Nacional (extrema-direita), o tema da imigração aparece em segundo lugar (enquanto aparece em oitavo lugar para o conjunto do eleitorado), entre o tema do emprego e o do aumento de preços.

Seguramente, além do emprego, os eleitores têm, em função de suas orientações políticas, diferentes preocupações. A esquerda se interessa pelos temas da carestia e da desigualdade. A direita mobiliza-se, sobretudo, em torno da questão da segurança e das relações inter-regionais, assim como a questão do peso da dívida e de seu pagamento pelas futuras gerações, e a do sistema educacional e de sua capacidade de preparar os jovens para as profissões do futuro. A extrema-direita guarda a especificidade da questão identitária e da imigração. Os candidatos à eleição presidencial não darão destaque aos mesmos temas.

A quatro meses das eleições de 22 de abril e 6 de maio, a queda na preocupação com o emprego não deve ter conseqüências tangíveis, pois a maioria dos eleitores considera que tanto a direita quanto a esquerda fracassaram na solução do problema do desemprego em massa. Por outro lado, as questões do aumento de preços, das desigualdades e da segurança trazem grandes expectativas e criam um verdadeiro abismo entre a esquerda e a direita. O resultado da eleição dependerá, em grande medida, da credibilidade dos principais candidatos ao responder de maneira mais ou menos convincente a essas perguntas.

O popular apresentador de televisão Nicolas Hulot anunciou que se os principais candidatos não se comprometessem em seu "pacto ecológico", ele seria candidato à eleição presidencial para defender a causa do planeta. Hulot fez assim com que dez dos candidatos assinassem o pacto e retirou-se do pleito.


Pascal Perrineau, professor universitário e diretor do centro de pesquisas políticas de Sciences Po (Cevipof)

Pascal Perrineau é professor universitário e diretor do Centro de Pesquisas Políticas da Sciences -Po (Cevipof). Especialista em comportamentos eleitorais e de extrema-direita, na França e na Europa, dirigiu a publicação de um Atlas électoral 2007, comprendre comment votent les français (Atlas eleitoral 2007, compreender como votam os franceses/ ed. Presses de Sciences Po, Paris 2007) e, com Colette Ysmal, uma obra coletiva intitulada Le vote de tous les refus, les élections présidentielles et législatives de 2002 (O voto de todas as recusas, as eleições presidenciais e legislativas de 2002/ ed. Presses de Sciences Po, Paris 2003).


Para saber mais:

Présidentielles 2007 : les 10 urgences des Français et leurs 365 questions, (Eleições Presidenciais 2007: as 10 emergências dos franceses e suas 365 questões), editora La Documentation Française, Paris, 2007.

[1]. Esse novo instrumento de avaliação, desenvolvido pelo Centro de Estudos da Vida Política Francesa (Cevipof), baseia-se em pesquisas realizadas em quatro momentos: primavera, outono, inverno de 2006 e fevereiro de 2007. Entre outras particularidades, ele trabalha com grandes amostragens representativas da população inscrita nas listas eleitorais: entre 5.200 e 5.700 pessoas, contra mil entrevistados nas pesquisas de opinião clássicas.

[2]. O projeto do governo de “Contrato de Primeiro Emprego”, proposto em abril de 2006 com o intuito de facilitar a entrada no mundo do trabalho dos jovens com menos de vinte e cinco anos, provocou uma oposição maciça dos estudantes e dos jovens e teve de ser abandonado.

Para saber mais: www.vie-publique.fr