Ministério das Relações Exteriores

 

O fim da clivagem esquerda-direita?


Os dois principais candidatos à eleição presidencial de 2007, Nicolas Sarkozy pelo partido atualmente no poder (UMP), e Ségolène Royal, pelo Partido Socialista, apropriaram-se de temas e símbolos de campos adversários, buscando ultrapassar a tradicional clivagem esquerda-direita e responder, dessa forma, aos anseios de muitos franceses. Os dois candidatos apresentam-se pela primeira vez em uma eleição presidencial, o que representa outro fator de renovação da vida política.

No país que a viu nascer, a oposição esquerda-direita, que orientou a vida política francesa durante dois séculos[1], entrou em crise sob o efeito de profundas transformações socioculturais. Pascal Perrineau explica.

A exemplo de várias sociedades, a França vive um profundo movimento de individuação e distanciamento em relação às submissões coletivas tradicionais. Esse movimento afeta a perenidade das escolhas políticas fortemente baseadas em filiações de esquerda ou de direita.

Questionando-se, em 1990, sobre a “deserção cívica”, o filósofo Marcel Gauchet constatava que oscilávamos rumo a “um individualismo desobrigado e desengajado em que a exigência de autenticidade torna-se antagônica à integração a um coletivo” [2]. Esse movimento de “desobrigação” entre os cidadãos e seus diferentes grupos de origem é sensível em três níveis: ideológico, social e territorial.

No plano ideológico, a velha clivagem esquerda-direita, que há décadas estrutura as escolhas e orientações políticas dos franceses, vive uma profunda crise. Se a maioria dos cidadãos acredita pertencer à esquerda ou à direita, isso não significa, no entanto, que tais categorias pareçam-lhes pertinentes, hoje, para compreender os posicionamentos dos partidos e dos políticos diante dos grandes temas (Europa, globalização, política internacional, etc.).


O candidato centrista da UDF, François Bayrou (aqui na Assembléia Nacional), tenta criar uma alternativa à bipolarização política francesa.

Novas linhas de divisão

No plano social, uma forte bipolarização - entre a classe operária e a burguesia - manteve, durante as décadas de pós-guerra (anos 1950 a 1970), a velha oposição esquerda-direita. Porém, clivagens mais plurais substituíram o esquema clássico de luta entre as duas classes, passando a atravessar toda a hierarquia social: estabilidade e precariedade do trabalho, famílias com um salário e famílias com dois, acesso diferenciado aos recursos distribuídos pelo Estado-providência.

Esse movimento de diferenciação foi acompanhado por um grande desenvolvimento das classes médias assalariadas (executivos de médio e alto nível) que têm, atualmente, peso maior do que os das camadas operárias da população ativa. Como observou o historiador Pierre Rosanvallon na obra Le Peuple Introuvable[3] (O povo inencontrável), em uma sociedade com pouca legibilidade do ponto de vista sociológico e menos clivada ideologicamente, os procedimentos representativos perdem sua evidência. Os contornos burgueses, por exemplo, que a esquerda francesa vem assumindo contribuem muito para tornar cada vez menos distinta a diferenciação entre esquerda e direita.

Há um terceiro indicador sensível, o da inscrição das clivagens políticas em territórios bastante específicos. Com freqüência, esquerda e direita criavam raízes em espaços geográficos determinados. Assumindo uma certa perenidade, esses espaços tendem, hoje, a ser recompostos devido à aceleração das migrações internas. As transformações do aparelho produtivo, a expansão do fenômeno de urbanização, o desmembramento de nossos territórios particulares e a aceleração dos deslocamentos geraram uma sociedade com mobilidade e circulação permanentes. Esses territórios, cada vez mais fragmentados e abstratos, não têm mais uma identidade política forte e permanente como os antigos espaços identitários.

Uma sociedade com maior mobilidade

Esse deslocamento dos fundamentos territoriais, sociais e ideológicos da representação política provocou profundo mal-estar democrático e uma confusão de referências. As velhas culturas políticas vêem sua heterogeneidade interna fortalecer-se e, ao mesmo tempo, as diferenças entre elas atenuarem-se.

O universo da direita está trespassado por uma fratura profunda entre as referências da direita clássica e as da extrema-direita. A constelação da esquerda está fragmentada em várias culturas nas quais o grau de “liberalismo cultural” ou a vontade de uma reforma vigorosa das estruturas econômicas variam muito. A cultura de esquerda é trabalhada pelo liberalismo e pela abertura da economia aos ventos fortes da globalização, enquanto a cultura de direita não rejeita o Estado nem a proteção social.

A eleição presidencial de 2007 busca recolocar em cena o grande confronto esquerda-direita, mas não se sabe ao certo se o eleitor conseguirá situar-se tão bem quanto a classe política.

Pascal Perrineau,
professor universitário e diretor do Centro de Pesquisas Políticas da Sciences Po (Cevipof)

Para ir mais longe:

La gauche en France (A esquerda na França), de Michel Winock, editora Perrin, Paris, 2006.
Histoire des droites (História das direitas), sob a direção de Jean-François Sirinelli, editora Gallimard, Paris, 1992.

[1]. Na Revolução de 1789, na sala da Assembléia Nacional Constituinte, os partidários do rei - e, logo, da ordem estabelecida - instalaram-se à direita e aqueles que desejavam pôr um termo à monarquia absoluta, e mesmo instaurar a democracia, à esquerda. Esta é a origem da distinção esquerda-direita.

[2]. Pacification démocratique, désertion civique (Pacificação democrática, deserção cívica), Marcel Gauchet, in Le Débat, n° 60, maio-agosto, 1990.

[3]. Pierre Rosanvallon, Le Peuple introuvable, Histoire de la représentation démocratique en France (O Povo inencontrável, História da representação democrática na França), ed. Gallimard, Paris, 1998.