Ministério das Relações Exteriores

 

A crise da representação


Três moças de um bairro popular de Avignon (sul da França)

Há cerca de vinte anos, a desconfiança dos franceses em relação a seus representantes vem se confirmando. Esse descontentamento dos cidadãos seria um sinal de desinteresse pela vida política ou ele indicaria, ao contrário, uma aspiração dos eleitores a mais democracia?

Parece existir um fosso entre o povo francês e seus eleitos, fato esse corroborado por pesquisas e estudos sociológicos: em 1985, 55% dos franceses não confiavam em seus dirigentes; em 2001, esse número passou para 75%.

Principal censura feita aos eleitos: “Eles não nos ouvem”. Os eleitores criticam também sua falta de sinceridade, o desrespeito às promessas feitas, a ausência de transparência e vontade política, um certo cinismo, etc.


Muitos franceses não se sentem representados pelos eleitos e dirigentes políticos. Principalmente em resposta a esse mal-estar, o canal público de televisão, France 5, decidiu acompanhar, de dezembro de 2006 ao dia seguinte à eleição, seis famílias representativas (uma delas na foto) para mostrar como os franceses vivem a campanha eleitoral.

Novas exigências de igualdade e representatividade

E, principalmente, seu pertencimento a um microcosmo, a uma esfera distante da realidade do cotidiano. “Eles fazem parte do mundo dos poderosos e, sobretudo, do mundo dos ricos”, pode-se ler em uma pesquisa aprofundada, realizada por três professores de ciência política[1]. É verdade que a elite dirigente não é um reflexo da diversidade da sociedade francesa. Esta, por sua vez, deseja atualmente que sua diversidade seja mais bem representada e que a classe política seja renovada. 70% dos deputados da Assembléia Nacional, atualmente, são oriundos do funcionalismo público, tendo origem social e profissional parecidas, deixando pouco espaço para as mulheres, os profissionais do setor privado (exceto médicos e advogados) e as minorias socioculturais. Grupos inteiros do corpo eleitoral também estão excluídos, como os da extrema-direita e da extrema-esquerda.

Por sua vez, qual a idéia que os dirigentes têm daqueles que lhe confiaram o poder? Segundo o cientista político Stéphane Rozès, “o eleito vê na opinião pública, nova imagem do povo, um ser imaturo a quem é necessário dissimular para seu próprio bem e uma ameaça a ser contornada, correndo o risco de fragilizar-se”.

Como resultado dessa dupla incompreensão, cada eleição assume a forma de uma sanção imposta àquele que sai. Nenhum governo, seja de direita ou de esquerda, foi reeleito desde 1981. Pois, acima de tudo, a maior parte dos franceses critica a impotência de seus dirigentes para responder às suas angústias mais profundas: desemprego, precariedade, abandono dos bairros pobres, efeitos negativos da globalização, etc., muito à frente da segurança e da imigração. A crise está se agravando? “Certamente, acredita a cientista política Janine Mossuz-Lavau, uma vez que essa crise da representação está enraizada em uma crise econômica que ninguém parece ser capaz de estancar.”

Eleitos menos influentes

É fato que, há alguns anos, o poder dos eleitos nacionais enfraqueceu-se muito. A descentralização (transferência às instâncias locais de várias competências que antes eram nacionais) tirou-lhes boa parte das prerrogativas, enquanto 70% das leis discutidas no Parlamento Francês são apenas transposições de diretivas européias. Finalmente, com o crescimento do poder de uma economia financeira globalizada, o papel, hoje preponderante, dos grandes acionistas e a independência dos bancos centrais fazem com que os governos pareçam estar mais atentos à opinião dos mercados que à de seus eleitores.

Enquanto a “representação, afirma o professor Richard Balme, exige um projeto de transformação social para suscitar a adesão e a convicção”, na política não há mais ilusões. Por um lado, os programas econômicos e sociais dos grandes partidos do governo tendem a confundir-se (ver artigo sobre o fim da clivagem esquerda-direita), fazendo com que a política não ofereça mais uma alternativa real. Por outro, o individualismo crescente da sociedade não pára de valorizar o fechamento dentro da esfera privada.

Perda real de sua influência ou sentimento confuso de sua impotência, os eleitos assistem à redução de sua credibilidade. Os sociólogos Guy Michelat e Michel Simon dão como exemplo a evolução das respostas à pergunta: “Seria muito grave suprimir a Assembléia Nacional?”. Em 1988, a resposta de 66% dos entrevistados foi afirmativa; em 2001, apenas 43% consideraria essa extinção algo grave.

Apesar dessa desconfiança em relação a seus representantes, os franceses não parecem evitar as questões políticas e os grandes temas do mundo contemporâneo. O voto permanece valorizado e as campanhas eleitorais mobilizam os eleitores de maneira bastante intensa. Porém, mais bem educados, mais competentes e mais exigentes também, querem ser ouvidos para além das urnas, recorrendo, quando necessário, a formas de expressão menos convencionais (ver artigo sobre “Fazer política de outra maneira”) ou dentro de estruturas mais flexíveis que as dos partidos políticos.

“Essas transformações, conclui Bruno Denis[2], podem ser interpretadas como sinais de uma crise, se nos ativermos à concepção republicana da democracia representativa. Mas também é possível ver nessas transformações indícios de transformações mais profundas, que teriam sido interiorizadas pelos cidadãos, e que exigiriam a elaboração de novas formas de legitimação democrática a partir de uma concepção renovada e ampliada da participação política como complemento da participação eleitoral.”

Emmanuel Thévenon, jornalista.


Os movimentos espontâneos, testemunhas da vitalidade da sociedade civil, multiplicaram-se nos últimos anos para tratar de problemas da sociedade não resolvidos pelos políticos. Em algumas semanas, durante o inverno de 2006, e graças à eficaz veiculação na mídia, "Os filhos de Dom Quixote" conseguiram mobilizar o governo sobre a questão dos sem-teto.

[1]. Richard Balme, Jean-Louis Marie e Olivier Rozenberg: Les Motifs de la confiance (et de la défiance) politique : intérêt, connaissance et conviction dans les formes du raisonnement politique (Os motivos da confiança [e da desconfiança] política: interesse, conhecimento e convicção nas formas do raciocínio político) in Revue Internationale de Politique Comparée, n° 3, vol.10, editora De Boeck, 2003.

[2]. In La participation politique, crise ou mutation? (Participação política, crise ou transformação?), editora La Documentation Française, Paris, 2006.