Ministério das Relações Exteriores

 

Fazer política de outra maneira


Criada durante o verão de 2006, a onda de apoio aos alunos estrangeiros em situação ilegal, que correm o risco de ser expulsos juntamente com suas famílias, é um dos movimentos mais fortes dos últimos anos. Dentro da Rede independente Educação Sem Fronteiras (RESF), milhares de franceses de todas as gerações e meios sociais puseram assim em prática sua adesão aos valores da divisa republicana “Liberdade, igualdade, fraternidade”. Acima, 66 eleitos, militantes associativos, sindicatos e simples cidadãos, oferecem, em outubro de 2006, seu “apadrinhamento republicano” a 33 crianças escolarizadas, provenientes de 20 famílias de imigrantes em situação irregular, no Conselho Regional do Limousin (centro da França).

Diante do esgotamento dos modelos tradicionais de representação, tanto os eleitores como os eleitos desenvolvem novas formas de expressão e de engajamento político.

Cerca de 28% de abstenção no primeiro turno das eleições presidenciais de 2002, “embora tenha sido o escrutínio com a maior mobilização”, como ressalta Bruno Denis[1]: desde a metade dos anos 80, a crise do voto é inquietante. As últimas pesquisas sobre a participação eleitoral do Instituto Nacional da Estatística e Estudos Econômicos (Insee)[2] mostram que a abstenção sistemática concentrou-se, tanto em 1995 como em 2002, nos meios populares com menor instrução: é uma “abstenção ligada à exclusão social”.

Votar para protestar

Uma abstenção acompanhada por um aumento dos votos “diferentes”. Os votos brancos e nulos, particularmente, entre 2 e 4%, constituiriam uma recusa da oferta eleitoral manifestando, ao mesmo tempo, a vontade de cumprir com o dever cívico de votar.

Mas houve, principalmente, uma elevação dos votos nos partidos contestadores: “ até então, eles nunca tinham alcançado número de votos tão expressivo em uma eleição presidencial”, analisava, já em abril de 1995[3], o cientista político Pascal Perrineau. Em 2002, um quarto dos votos válidos foi para candidatos que tiveram, cada um, porcentagens inferiores a 5% e a metade foi para candidatos que não atingiram 10% do total dos votos. Números estes que indicam, por um lado, o crescimento de partidos extremistas e, por outro, a queda dos partidos ditos de governo, sinal do crescente déficit de sua legitimidade.

Se, em 1965, o general de Gaulle e François Mitterand obtiveram, com os dois nomes, 76% dos votos no primeiro turno, em 2002, Lionel Jospin e Jacques Chirac obtiveram apenas 33%, abrindo espaço para a presença de Jean-Marie Le Pen no segundo turno. Novo divórcio entre os franceses e os partidos ditos clássicos três anos mais tarde, no momento do plebiscito sobre o projeto de Constituição Européia: o “não” ganha com 54% dos votos, embora os três maiores partidos tenham conclamado os eleitores a votar “sim”, com o apoio quase total da mídia francesa...

As eleições, para alguns grupos de eleitores, são uma oportunidade para manifestar sua insatisfação em relação à oferta eleitoral, expressar seu descrédito na classe política e mostrar seu temor diante dos novos desafios (ver artigo sobre a crise da representação). Votar parece não ser mais algo acompanhado da certeza de que se pode mudar as coisas, ainda que fosse apenas manifestando sua discordância.

Nova dinâmica

Trata-se de uma inversão de peso na vida política? Sim, afirma com convicção o sociólogo Roger Sue[4], que vê nesse processo o corolário de um “desengajamento militante”[5]: uma nova dinâmica social em andamento. Engajar-se, agir por uma causa, fazer política, é fazer com que se ouça uma outra voz e tentar mobilizar muitos em relação a temas que, em princípio, interessariam apenas a uma minoria de cidadãos.

As organizações tradicionais perderam, assim, muito de sua influência para outras modalidades de engajamento que, por sua vez, mobilizaram com força sobretudo os jovens em relação a temas éticos e humanitários, igualitários e humanistas, ecologistas e planetários (ver artigo "A crise da representação").

Os resultados para a França da pesquisa sobre os valores dos europeus (European Social Survey[6]) mostram, com efeito, que a participação eleitoral dá lugar à participação de protesto (assinatura de petições, manifestações, ações diversas, etc.). Dessa forma, “enquanto 50% dos franceses não tinham qualquer experiência em protestos políticos em 1981, apenas 28% deles permaneceram nessa situação em 1999”, lê-se, na obra coletiva publicada no verão de 2006 sobre a participação política.

Fazer política de outra maneira - fazendo, sobretudo, com que os franceses envolvam-se, participem mais do debate (ver a campanha de debates participativos lançada pelo Partido Socialista, cuja candidata oficial é Ségolène Royal) - parece mais fácil hoje com a utilização das novas tecnologias: Internet, celulares, conexão sem fio, blogs (ver entrevista com J.-L. Missika). As personalidades políticas compreenderam isso muito bem. Com seus sites, organizam debates com os cidadãos, fazem com que estes se associem aos novos processos de tomada de decisão nacional e, principalmente, local, convidam-nos a participar das campanhas eleitorais, etc.

Os eleitores, por sua vez, esperam entrar no debate e fazer com que sua voz seja ouvida por meio dos novos meios de comunicação. Um novo poder[7] está nascendo, com a possibilidade de reunir os cidadãos e de reinventar os próprios fundamentos de nossa democracia.

Mélina Gazsi, jornalista


Novas mobilizações

Os novos movimentos políticos, pontuais ou temáticos, defendem as minorias, os “sem”, bem como os “globalizados”: os movimentos de gays e lésbicas, os grupos negros e as diferentes etnias. Mas também os desempregados, os sem-teto, os clandestinos, os precários, os trabalhadores pobres, os doentes, os jovens, as mulheres... Os movimentos lutam tanto pelo reconhecimento, pelo respeito e pela dignidade, quanto pela obtenção de direitos e pela igualdade de oportunidades para todos os cidadãos. As novas mobilizações assumem a forma de petições eletrônicas, passeatas de protesto, encontros internacionais, teatros de rua, “procissões”, movimentos de bairro, etc.

M. G.


Para ir mais longe...

Comportements et attitudes politiques (Comportamentos e atitudes políticas) Pierre Bréchon, editora Presses Universitaires de Grenoble, 2006.

La France rebelle (A França rebelde), sob a direção de Xavier Crettiez e Isabelle Sommier, ed. Michalon, Paris, 2002.

[1]. La Participation politique. Crise ou mutation ? (A Participação política. Crise ou transformação?), Ibid.

[2]. www.insee.fr

[3]. In Le Monde de 26 de abril de 1995.

[4]. La Société civile face au pouvoir (A Sociedade civil diante do poder), de Roger Sue, ed. Presses de Sciences Po, Paris, 2003.

[5]. Le Désengagement militant, (O Desengajamento militante) sob a direção de Olivier Fillieule, ed. Belin, Paris, 2005.

[6]. Primeira rede de análise social comparada na Europa. As duas primeiras partes dessa pesquisa cobrem o período entre 2002 e 2005. A terceira ainda aguarda publicação.

[7]. Le cinquième pouvoir, comment Internet bouleverse la politique ? (O quinto poder - como a Internet transforma a política?) de Thierry Crouzet, ed. Bourin, 2007.