| Mídia
e política: "A interatividade
transforma a democracia"

A
internet e os blogs tornaram-se um novo instrumento
de expressão política dos cidadãos
entre si e para com os políticos, que,
por sua vez, também apropriam-se dessa
nova mídia.
Jean-Louis
Missika, sociólogo dos órgãos
de comunicação, analisa o impacto
do declínio da mídia clássica
e do desenvolvimento das novas tecnologias
da informação sobre a vida política.
Entrevista.
Durante muito
tempo, a mídia teve, na França,
um papel de destaque na formação
da opinião pública. Para o senhor,
que anuncia em uma de suas recentes obras
“o fim da televisão”, qual
é hoje seu papel?
Se entendemos
por mídia a imprensa escrita e audiovisual,
é certo que assistimos ao fim de uma
época, a uma forte diminuição
de seu poder sobre a opinião pública.
Claro, o poder da televisão continua
a existir, mas está desgastado. Há
menos de trinta anos, a televisão,
investida de uma missão pedagógica,
tinha também uma missão política.
Esse modelo começou a desmoronar nos
anos 80, com os canais por assinatura. E,
nos últimos anos, com a multiplicação
da oferta televisiva e o aparecimento da oferta
digital - com a Internet e os blogs[1]
-, a informação clássica,
seja ela televisiva ou escrita, concorre hoje
com novas fontes e novos modelos. Como se
não bastasse, os estatutos do jornalista
e do especialista também estão
perdendo importância por uma espécie
de banalização do acesso à
palavra. Os votos de Ano Novo de Nicolas Sarkozy
e Ségolène Royal na Internet,
por exemplo, tiveram maior repercussão
do que os de Jacques Chirac na televisão.
Essa evolução
tem seguramente conseqüências nas
relações existentes entre a
mídia e a política, entre a
mídia e a opinião pública.
Já a imprensa escrita sofre com a queda
das receitas publicitárias e a falta
de leitores. Os jovens, em particular, optam
pela gratuidade e a Internet.
A
candidata socialista
Ségolène Royal, ao lado
de seu companheiro François Hollande,
secretário-geral do PS, lançou
oficialmente a campanha dos debates
participativos em dezembro de 2006,
campanha essa que terá cerca
de 5.000 reuniões locais. O sucesso
dessa fase de escuta e discussão,
que recoloca os cidadãos no centro
da política, atesta a vontade
dos franceses de ter voz na elaboração
de um projeto de sociedade. |
O que explica o crescimento
dos novos produtores de informação
que são a Internet e os blogs?
O declínio
da imprensa escrita é um fenômeno
europeu, mas ocorre de maneira mais
intensa na França, sem dúvida
porque os jornais são mais
vulneráveis financeiramente
do que no resto da Europa. Na França,
os jornais mais influentes, os que
contam, passam por uma verdadeira
crise. Provavelmente, o baixo custo
da Internet na França - o acesso
à banda larga é um dos
mais baratos do mundo - é uma
das razões do sucesso dos blogs.
E os políticos já compreenderam
isso, tanto que os utilizam cada vez
mais. Entretanto, é a interatividade
que está no centro dessa transformação
radical da democracia, da vida política
e da formação e expressão
da opinião pública.
O enfraquecimento
do papel político da mídia
fortalece o jornalismo participativo.
Antes, a mídia de massa, sobretudo
a televisão, favorecia e induzia
o surgimento de uma exigência
compartilhada pela maioria, o povo,
o “demos”... Hoje, com
as novas tecnologias, cada um dispõe
de seus próprios meios para
expressar-se, e é justamente
a fala individual de um maior número
de pessoas que entra no debate, o
que pode torná-lo caótico
e sem sincronia.
Segundo o senhor,
isso é ainda mais certo na
França. Por quê?
Com o sucesso
da Internet, dos “chats”[2],
dos blogs, etc., os franceses foram
introduzidos na mídia “conversacional”,
que coloca o público em pé
de igualdade, que lhe permite interpelar
o jornalista ou o político
e reagir em tempo real. Se os blogs
são, por exemplo, mais numerosos
na França do que na Alemanha,
é porque os franceses vêem
nessas novas formas de informação
a possibilidade de contornar o que
consideram os duas maiores falhas
da imprensa: a distância da
elite dos jornalistas em relação
aos cidadãos comuns e sua conivência
com os políticos. Mas isso
se deve também ao fato de gostarem
do debate e, provavelmente, terem
uma sede de expressão pessoal
manifestada pelos milhões de
“blogers” à sua
maneira.
Entrevista
realizada por Mélina Gaszi
|
Jean-Louis
Missika em algumas linhas
Formado
em filosofia, ciências políticas,
administração e economia,
Jean-Louis Missika é um especialista
em informação. Assumiu,
nessa área, várias funções.
Hoje, ele é consultor em estratégia
da mídia e comunicação.
Desde 1984, ensina sociologia da mídia
na Faculdade Sciences-Po de Paris.
Obra recente La Fin de la télévision
(O fim da televisão), na coleção
“La République des Idées”(A
República das Idéias),
editora Seuil, Paris, 2006.
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[1] blogs: sites
pessoais criados por pessoas
[2]
chats: fóruns de discussão
on line
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