| O
papel das pesquisas: eleitores influenciados?

A
imprensa é uma grande consumidora das
pesquisas políticas ao longo das
campanhas eleitorais e, em particular, das
presidenciais.
Fotografia
da opinião pública em um instante
preciso, as pesquisas tornaram-se indicadores
- mas também atores - inevitáveis
no contexto das campanhas eleitorais. Análise
de Roland Cayrol.
Para mim,
há uma imagem bastante eloqüente
para ilustrar o papel das pesquisas na vida
política francesa[1].
Durante a Volta da França de ciclismo,
apareceram, um dia, os “louseiros”,
motociclistas munidos de lousas, que eram
mostradas aos ciclistas para que estes soubessem,
com a precisão de minutos e segundos,
qual era o avanço ou atraso que estes
tinham em relação ao resto dos
competidores. Desde sua aparição,
a Volta não é mais a mesma!
Os pesquisadores tornaram-se os “louseiros”
das campanhas eleitorais.
Foram
as eleições presidenciais que,
na França, deram visibilidade às
pesquisas. A mídia é uma de
suas grandes consumidoras: quase todos os
dias há uma nova pesquisa, com a especificidade
francesa de não hesitar em citar, além
das suas, as pesquisas realizadas por outros,
para maior satisfação do público,
que acompanha apaixonadamente “a corrida
de cavalos”.
Esclarecer
a opinião pública
É
preciso reconhecer essa qualidade da imprensa
francesa: as pesquisas não abordam
apenas as intenções de voto.
O cidadão não é informado
apenas sobre os índices de cada candidato,
mas também sobre os desdobramentos,
as personalidades e os valores predominantes.
Além disso, são divulgadas também
a distribuição em função
da idade, do sexo, do grupo sócio-profissional
e das simpatias políticas dos eleitores.
A questão
que se coloca, evidentemente, é saber
qual o impacto dessas pesquisas na vida democrática.
Elas são utilizadas primeiramente pelos
candidatos e suas equipes, a quem fornecem
um painel da opinião pública.
Elas prestam serviço à mídia
também, sobretudo a televisiva, que
passa a negligenciar os candidatos marginalizados
nas pesquisas. Isso acaba por ter um efeito
cumulativo: com mau desempenho logo de saída,
o candidato é maltratado pela mídia,
o que não o ajuda nem um pouco no processo
de se tornar conhecido para conquistar um
eleitorado[2]...
A publicação das pesquisas tende
a ampliar a distância de tratamento
operada entre os candidatos “que têm
uma chance de vitória” e os candidatos
“pró-forma”. As pesquisas
desempenham na França um verdadeiro
papel de “primárias”, estabelecendo
uma hierarquia entre os candidatos.
Os eleitores
são influenciados pelas pesquisas?
Quando perguntamos sobre os meios que são
úteis à sua escolha, 3 a 5%
aproximadamente as mencionam. Não é
muito, porém, vale lembrar que a vitória
final é definida com uma diferrença
de votos menor.
Na verdade,
a qualidade da campanha tem mais peso do que
as pesquisas: Édouard Balladur em 1995,
ou Lionel Jospin em 2002 partiram em primeiro
lugar nas pesquisas e nem por isso ganharam
a eleição! Eles acabaram por
decepcionar e, assim, perder o apoio de grande
número de seus eleitores potenciais.
As curvas das pesquisas registraram quedas
e se cruzaram durante a campanha no caso Balladur/Chirac.
Elas corresponderam à tendência
no caso Jospin/Le Pen, mas as sondagens não
previram a passagem do candidato da extrema-direita
à frente do candidato do Partido Socialista
em 2002, fato que faz com que ainda sejam
fortemente criticadas.
A era
do “eleitor estrategista”
Tendo
se tornado estrategista no uso do voto, o
eleitor hoje sabe qual a relação
de forças entre os candidatos. Ele
pode decidir-se a dar um voto “útil”
a um candidato capaz de vencer, ou, ao contrário,
optar por um voto de protesto contra os resultados
que lhe são apresentados como certos.
Dessa maneira, em 2002, os votos de esquerda
quiseram dar um recado aos seus e abandonaram
no primeiro turno a candidatura de Jospin,
julgada pouco convincente, e escolheram outros
candidatos.
A legitimidade
da influência das pesquisas é
regularmente questionada. Mas pode-se pensar
que a consciência das relações
de força entre os candidatos é
um elemento útil na formação
do voto - preferível, em todo o caso,
à circulação de boatos
sem controle: é com conhecimento de
causa que o eleitor escolhe hoje o seu candidato.
Sabendo em que pé está a disputa,
ele dimensiona o peso de seu voto e, assim,
o peso de sua responsabilidade pessoal, de
modo plenamente consciente.
Roland
Cayrol,
diretor do instituto de pesquisas CSA
[1]. Cf.
a revista Pouvoirs (Poderes), « Voter
» (Votar), n° 120, janeiro de 2007.
[2].
Essa desigualdade de acesso à mídia
não havia sido denunciada até
a campanha para as eleições
presidenciais de 2007, por candidatos como
o centrista François Bayrou ou a ex-ministra
do Meio Ambiente Corinne Lepage, que fizeram
disso uma questão democrática.
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