Ministério das Relações Exteriores

 

As ciências sociais em campanha


Intelectuais, professores universitários e pesquisadores nunca estiveram tão presentes na mídia
e no debate público. O cientista político Dominique Reynié, no programa “Em duas palavras” da emissora pública La Cinquième, decodifica os discursos e as atitudes dos pretendentes ao
Palácio do Eliseu.

Centros de estudos, observatórios e pesquisadores em ciências sociais realizam na França um trabalho de pesquisa e atualização das realidades do país. Trabalhos que podem até mesmo esclarecer os dirigentes políticos e o poder público, ambos querendo acompanhar ou influenciar a evolução da sociedade.

O que se sabe de fato hoje sobre as realidades sociais na França? Ao lado de discursos e imagens - muitas vezes transversais, orientados ou simplistas - sobre a sociedade francesa, veiculados pela mídia, pela classe política e pelo senso comum, os intelectuais e pesquisadores têm um papel importante para uma compreensão mais profunda da evolução das realidades sociais.

Diante de acontecimentos recentes, como a presença de Jean-Marie Le Pen no segundo turno das eleições presidenciais de 2002, a vitória do “não” no referendo de 29 de maio de 2005 sobre o Tratado Constitucional da Europa, ou ainda as revoltas na periferia em novembro de 2005, um sentimento de distância profunda surgiu entre o que os franceses vivem e sua representação nos discursos políticos e midiáticos. Partindo da constatação de que a crise política francesa surge primeiramente daí, colóquios, centros de estudos, obras de pesquisadores e pesquisas em ciências sociais multiplicaram-se nos últimos anos com o intuito de fazer o diagnóstico mais preciso possível do estado da sociedade. Assistimos, com efeito, a “um movimento que se faz nos dois sentidos”, indica o editor Thierry Pech, “o mundo político tentando compreender a sociedade e o mundo intelectual tentando tornar-se mais útil” (Le Monde de 31 de janeiro de 2007).


O fotógrafo Jacques Grison apresenta seu trabalho sobre os habitantes da cidade Clichy-sous-Bois (“Clichy sem clichês”), oferecendo um outro olhar sobre essa cidade da periferia parisiense que foi palco das rebeliões de 2005.

Renovação da crítica social

Quais são hoje na França os lugares da pesquisa e da crítica social? Trata-se de instituições públicas, onde, desde 1945, a pesquisa sociológica começou a se desenvolver: Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS), Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (EHESS), Conservatório Nacional de Artes e Profissões (Cnam), Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences-Po), grandes institutos de estatística pública (Ined, Insee). Mas trata-se, sobretudo, no que se refere às ciências sociais - que gozam de uma longa e reputada tradição na França -, da universidade, que substituiu o CNRS como principal centro de recrutamento de sociólogos, graças, notadamente, à democratização do ensino superior. A figura do intelectual engajado, normalmente filósofo, foi substituída pela de economistas e sociólogos mais do que nunca implicados em seu papel de esclarecedores do debate público (ver quadro bibliográfico).

Debate de idéias e iniciativa cidadã

Sendo, ao mesmo tempo, espaços complementares dessas pesquisas e meios de transmissão para um público mais amplo, as revistas de idéias gerais conservam, , um grande prestígio na França devido à sua história. Um grande número de debates que animaram a vida pública desde o pós-guerra ganhou forma, da condenação da tortura durante a guerra da Argélia (Les Temps Modernes) até a grande controvérsia de 1995 sobre a reforma do sistema de proteção social (Esprit).

Hoje, entretanto, sua influência diminui a olhos vistos. Le Débat, Esprit, Commentaires, les Temps Modernes para as mais clássicas; Actes de la Recherche en Sciences Sociales, Vacarme, Multitudes, Mouvements para as mais radicais, estão confrontadas ao novo ritmo dos debates impulsionados por uma mídia cada vez mais reativa. Algumas, aliás, não vislumbram mais sua continuação sem uma edição digital.


Uma das fotografias da exposição “Clichy sem clichês”, exposta na cidade em outubro de 2006.

Os pesquisadores em ciências sociais têm por vocação revelar as realidades cotidianas do maior número de pessoas, freqüentemente invisíveis na representação da sociedade, que veiculam os discursos da mídia ou dos políticos.

Enquanto estruturas mais leves encontram soluções alternativas, como o coletivo “Raisons d’Agir”, herdeiro dos projetos editoriais de Pierre Bourdieu (editora Liber), que publica na editora do Croquant obras de pesquisadores engajados, baratas e vinculadas aos debates atuais.

Na editora Seuil, uma coleção intitulada La République des Idées (A República das Idéias), dirigida pelo historiador Pierre Rosenvallon e Thierry Pech, conseguiu impor-se, em alguns anos apenas, como um espaço central no debate de idéias. Concebido segundo o modelo de um clube de reflexão intelectual (think tank), propondo uma renovação da “crítica social”, seus livros são regularmente citados pelos políticos da direita e da esquerda. Seu sucesso deve-se também à forma escolhida: livros curtos, baratos, cuja leitura tornou-se acessível a um público mais amplo.

A sociedade decodificada

Uma outra empreitada original inscrita em um verdadeiro processo de cidadania é o Observatório das Desigualdades, criado em 2003 por jornalistas e acadêmicos com o intuito de informar o grande público sobre as desigualdades sociais, freqüentemente deformadas com fins ideológicos. Ele publica, notadamente em seu site Internet, dados e análises em forma de alerta que permitem a atualização dos conhecimentos e da reflexão sobre as desigualdades tanto em matéria de renda, de acesso ao lazer ou aos cuidados médicos. Em plena campanha eleitoral, em tempos de grandes escolhas políticas quanto à política fiscal ou de redistribuição, a definição e a avaliação do número dos que podem ser considerados “ricos”, “pobres” ou “classe média” não são nada banais.

Se essa efervescência da pesquisa serve para que se conheça melhor o mundo social, seu impacto depende, em grande medida, do uso que fazem dela os políticos, sujeitos a todo o tipo de influências.

Jade Lindgaard, jornalista da revista cultural Les Inrockuptibles

 

A favor ou contra as estatísticas étnicas?

Uma controvérsia opõe, há alguns anos, militantes associativos, pesquisadores e representantes do Estado sobre a questão das “estatísticas étnicas”. Desde 1978, a lei francesa proíbe a identificação e que se leve em consideração a origem étnica e religiosa das pessoas estudadas pela estatística pública. Entretanto, um número crescente de vozes - inclusive do Conselho Representativo das Associações Negras (Cran), associação criada em 2005 - mobilizam-se para exigir que sejam medidas quantitativamente as discriminações no acesso ao emprego, à moradia, etc., que atingem os franceses não “brancos”, para que possam ser melhor combatidas, sobretudo neste período decisivo de campanha eleitoral.

Essa reivindicação é considerada “comunitarista” pelos defensores da lei de 1978, para quem o Estado não deveria abrir mão de sua abordagem republicana universalista, recusando-se a estabelecer distinções entre seus cidadãos em nome do princípio da igualdade de todos perante a lei. Um número considerável de negros, judeus ou de origem árabe-muçulmana recusam-se, aliás, a serem identificados por esse aspecto de sua identidade, pelo risco de serem reduzidos a isso.

Já os defensores das “estatísticas étnicas” denunciam um princípio de igualdade meramente virtual, não-efetivo para aqueles que são discriminados e citam como exemplo as mulheres que lograram fazer da diminuição das desigualdades de gênero uma prioridade a partir do momento em que foi possível constatar que as mulheres ganhavam em média um salário 30% inferior ao dos homens.

J. L.

 

Trabalhos recentes sobre a sociedade francesa:

L’Emeute de novembre 2005 (A rebelião de novembro de 2005), do sociólogo Gérard Mauger, editora Croquant, Broissieux, 2006.

La France invisible, enquête sur un pays en état d’urgence sociale (A França invisível, pesquisa sobre um país em estado de emergência nacional), sob a direção de Stéphane Beaud, Joseph Confavreux e Jade Lindgaard, editora La Découverte, Paris, 2006.

Na coleção La République des idées, na editora Seuil (Paris):

Le Deuxième âge de l’émancipation (A segunda idade da emancipação), sobre o novo perfil das desigualdades entre homens e mulheres, dos sociólogos Dominique Méda e Hélène Périvier, 2007.

Trois leçons sur la société post-industrielle (Três lições sobre a sociedade pós-industrial), do economista Daniel Cohen, 2006.

Les Classes moyennes à la derive (As classes médias à deriva), do sociólogo Louis Chauvel, 2006.

Les Désordres du travail, enquête sur le nouveau productivisme (As desordens do trabalho, pesquisa sobre o novo produtivismo), do economista Philippe Askenazy, 2004.

Na Internet:

Site do Observatório das Desigualdades: www.inégalités.fr

www.sciences-po.fr

www.cnrs.fr

www.ehess.fr

www.ined.fr

www.insee.fr

www.cnam.fr

www.le-debat.gallimard.fr

www.esprit.presse.fr

www.vacarme.eu.org

multitudes.samizdat.net

Entrevista com o ensaísta Jean-Claude Guillebaud sobre o valor das convicções e da tolerância na democracia.