Ministério das Relações Exteriores

 

Entrevista com Dominique Wolton

“A francofonia é uma oportunidade para a globalização”


“O mais recente - e 11º - Encontro da Francofonia foi realizado em setembro de 2006 em Bucareste, na Romênia, tendo como tema “as novas tecnologias da informação na educação.”

Em um ensaio que consegue ser ao mesmo tempo bem argumentado e apaixonado, o sociólogo Dominique Wolton* mostra que a francofonia não está “fora de moda”. Ela é, ao contrário, a via do futuro. A seguir, algumas explicações.

O senhor é essencialmente sociólogo e especialista em comunicação. Como chegou à francofonia?

Tento, há vários anos, construir uma teoria da comunicação no contexto da globalização acelerada à qual assistimos atualmente. Parti da hipótese de que a comunicação é condição indispensável à democracia e à globalização. Se o fenômeno da globalização suscita, hoje, tantas frustrações e violências, é porque provavelmente a comunicação não acontece mais.

Ora, o que é comunicar? É reconhecer a humanidade e a especificidade do Outro que, por sua vez, recebe-me e reconhece-me como igual. Parece-me que as áreas lingüísticas e culturais, tais como a francofonia, a lusofonia, a hispanofonia, a russofonia e a arabofonia, desenvolvidas ao longo das décadas, encarnam melhor do que outras entidades essa comunicação ideal baseada no reconhecimento da diversidade cultural do mundo. Como sou francês, era natural que me voltasse para a francofonia.

O senhor escreve em seu livro que a francofonia é uma oportunidade para a globalização. Explique-nos por que razão.

Porque ela valoriza a diversidade cultural, tornando-a tolerável e legível. Explico: a globalização uniformiza o mundo no plano econômico e acentua as diferenças no plano cultural. Ela favorece o surgimento da identidade-refúgio e dos movimentos comunitaristas, enquanto as áreas lingüísticas, que têm experiência histórica na gestão das diversidades, evitam os retraimentos identitários, gerando solidariedades mínimas baseadas, primeiramente, na língua. Pelo menos podemos nos falar! Veja bem, vivemos plenamente a comunicação e o que chamo, citando [o escritor martiniquês] Édouard Glissant, de “identidade relacional”.

Seu livro está repleto de achados e neologismos. O que o senhor entende, citando um exemplo, por “francosfera”?

É simplesmente a francofonia em tempo de globalização. Se a francofonia é uma oportunidade para a globalização, esta também o é para a francofonia. Ela anuncia a entrada do conjunto francófono em uma nova etapa na qual o francês torna-se uma outra língua, um instrumento de comunicação universal que escapa à potência tutelar. É o terceiro movimento da francofonia. A primeira etapa ocorreu, grosso modo, entre os séculos dezessete e vinte, quando a língua francesa impôs-se no mundo por meio das conquistas coloniais. A segunda começou com a fundação da francofonia institucional, da qual os principais mentores não foram de forma alguma os franceses, como se poderia esperar, mas sim os francófonos oriundos da colonização. O francês já havia escapado aos seus primeiros falantes. Na nova fase que começa, a francofonia, por um lado, terá de reinventar sua relação com as forças vivas da sociedade e, por outro, sair de seu nicho histórico e crescer para fora dos muros, onde é esperada: é a isso que chamo de “francosfera”.

O título de seu livro nos faz crer que a francofonia é a via do futuro. Entretanto, hoje, sabe-se pouco sobre ela. Em sua opinião, o que será necessário para que se torne uma instância realmente popular?

O peso crescente de sua burocracia e de seu aspecto institucional afastou a francofonia do grande público. É necessário empreender ações de envergadura, sobretudo em relação aos jovens e à sociedade civil, que serão os protagonistas da terceira francofonia. A principal proposta feita em meu livro é a criação de um Erasmus francófono que permitiria a todos os estudantes que falam francês poder circular. A francofonia deve favorecer os deslocamentos, pois convivendo uns com os outros é que os homens aprenderão a viver juntos em paz!

Entrevista realizada por Tirthankar Chanda

Doutor em sociologia, Dominique Wolton é diretor de pesquisa do Centro Nacional da Pesquisa Científica (CNRS), onde dirige, desde 2000, o laboratório de “Informação, Comunicação e Implicações Científicas”. É autor de várias obras cujos temas vão da nova ordem sexual à globalização, passando pela comunicação política, a Europa, a Internet e, atualmente, a francofonia, com seu novo livro intitulado Demain la francophonie (Amanhã, a Francofonia - editora Flammarion, Paris, 2006).