Ministério das Relações Exteriores

 

Entrevista com Jean-Claude Guillebaud, escritor e ensaísta

“Apenas as crenças fortes são tolerantes”

Herdeira das Luzes, a democracia consagrou a razão - emancipada das crenças -, as virtudes do espírito crítico e da dúvida, ou seja, a capacidade dos homens de se ouvir sem fazer uso da violência. Tendo por corolário a liberdade de pensar e expressar-se, bem como a tolerância frente à pluralidade de opiniões. Ameaçada internamente hoje pelo ceticismo e, externamente, pelo fanatismo, como a democracia pode abrir espaço para “convicções pertinentes”?

Em sua última obra, La Force de Conviction (A Força de Convicção), o senhor insiste sobre o fato de que “precisamos reaprender a crer”. Qual a razão de tal necessidade?

Por volta de quinze anos atrás, livros de sucesso, como A Era do Vazio de Gilles Lipovetsky, celebravam, na França, o fim das ideologias e dos sistemas de crenças das grandes religiões. Poderíamos, enfim, entregarmo-nos à frivolidade. Só que, expulsa pela porta, a crença voltou pela janela, sob a forma de credulidade, de superstições. Por meio da mídia, a moda da paranormalidade voltou com força, como no século XIX. Vários são, também, os que reverenciam os novos ídolos em que o mercado financeiro, a ciência e a tecnologia tornaram-se... Apesar dessas derivas, parece que todo ser humano, toda sociedade, precisa de uma fé mínima para atingir sua própria humanidade. Pois, para duvidar, interrogava-se o filósofo Ludwig Wittgenstein, não são necessárias algumas convicções que fundam ao menos a dúvida[1]? A própria cidadania democrática desenvolveu uma crença [na razão e no progresso humano] que acredita poder transformar o mundo.

Ao mesmo tempo, temos todas as razões para desconfiar, pois nossas crenças podem tornar-se dogmáticas, agressivas e até assassinas... Em nome do patriotismo, da igualdade entre os homens ou do voluntarismo histórico, essa vontade que temos de forjar o mundo de amanhã, desonrada pelos nazistas, fez do século XX certamente o mais sangrento até então. Neste início de século XXI, é Deus que está, desta vez, envolvido em todos os tipos de batalhas e crimes.

Eis porque precisamos reaprender a crer. É necessário restaurar essa capacidade, constitutiva do princípio da humanidade, sem abrir mão de nossa lucidez, nem de nosso livre arbítrio.

É a isso que o senhor chama de “fé paradoxal”...

É uma fé civilizada, situada em algum lugar entre o nada e o excesso, entre o fanatismo e a desesperança. O filósofo francês Cornélius Castoriadis (1922-1997) comparava a fé a uma ponte jogada - e o adjetivo “jogada” é importante - de maneira voluntária no abismo do mundo, ou seja, no abismo da dúvida. Há, em seguida, duas maneiras de atravessá-lo: à moda dogmática, clerical, medrosa, que se recusa a olhar em volta para o abismo que representa a dúvida; também é possível avançar com os olhos abertos, confrontando-se com o vazio, olhando, assim, em outras direções, as demais passarelas fabricadas por métodos diferentes dos meus, por pessoas que acreditam em coisas diferentes das minhas. Devo ser capaz de reconhecer a alteridade irredutível de uma outra fé e sua fraternidade com a minha. Eis aí uma maneira tolerante e fraterna de ter fé.

Ela é paradoxal, pois não deve poupar-se da objeção, da crítica, mesmo se uma crença, por definição, dê o sentimento de possuir a verdade. Precisamos, então, afirmar nossas certezas, aceitando questioná-las constantemente. “Comprometer-se significa aderir a uma causa imperfeita”, resumia magnificamente o filósofo alemão Paul-Louis Landsberg (1901-1944).

Como é possível aplicar essa “força de crença” na prática?

A ética mínima é acreditar no modo como vivemos e viver como acreditamos. Há, a nossa volta, muitas personalidades políticas, filosóficas - e até religiosas - que não fazem o que pregam. Alguns pais inculcam nos filhos a noção de fidelidade no casal e, ao mesmo tempo, praticam o adultério burguês. Na França, alguém como a presidente do sindicato dos empresários (Medef), Laurence Parisot, chegou a declarar que “A vida, a saúde, o amor [são] precários, por que o trabalho escaparia a essa regra?”. Vale ressaltar que esse discurso destina-se aos empregados, não aos patrões representados por ela e que não param de se precaver contra essa mesma precariedade com o fortalecimento de pára-quedas de ouro, de indenizações consideráveis, ou de ações na bolsa. O elogio à precariedade pode ser legítimo... desde que se aplique, em primeiro lugar, a si mesmo.

O senhor descreve uma sociedade que oscila entre o fanatismo e o cinismo... Que lugar resta à tolerância e às crenças pertinentes que o senhor defende?

Contrariamente ao que poderíamos acreditar, apenas as crenças fortes são tolerantes. Elas tornam-se serenas quando atingem certo grau de maturação, tendo sido interiorizadas, refletidas, fortalecidas por um mínimo de vida interior e de esforço.

Quando era jornalista, eu passava, por vezes, noites inteiras discutindo sobre o cristianismo e o islã, com um espírito aberto e sereno. Estou realmente convencido de que é a força de uma fé, crença, ou convicção que a torna capaz de dialogar e ser aberta e não o contrário. Confesse que isso é reconfortante!

Emmanuel Thévenon, jornalista.

Bibliografia

La Force de conviction : à quoi pouvons-nous croire ?(A Força da convicção: em que podemos crer?), ed. Seuil, Paris, 2005.
Le Goût de l'avenir (O gosto do futuro) ed. Seuil, Paris, 2003.
L’Esprit du lieu (O Espírito do lugar), ed. Arléa, Paris, 2002.
Le Principe d’humanité (O Princípio de humanidade), ed. Seuil, Paris, 2001.
La Refondation du monde (A Reinvenção do mundo), ed. Seuil, Paris, 1999.
La Tyrannie du plaisir (A Tirania do prazer), ed. Seuil, Paris, 1998.
La Trahison des Lumières : enquête sur le désarroi contemporain (A Traição das Luzes: enquete sobre a desordem contemporânea), ed. Seuil, Paris, 1995.

[1] “Quem quiser duvidar de tudo não chegará sequer à dúvida. O próprio jogo da dúvida pressupõe a certeza...”.