Ministério das Relações Exteriores

Tribunal de Contas: as despesas do Estado sob controle

Ele é uma das mais antigas instituições de controle da França e do mundo e uma engrenagem central do estado de direito que, ao controlar de maneira independente os gastos públicos, atua como um contra-poder.

Inauguração do afresco de Bernard Venet que ornamenta o teto da galeria-biblioteca do Tribunal de Contas, em janeiro de 2007, pelo presidente Jacques Chirac, cercado por conselheiros e pelo Primeiro
Presidente do Tribunal, Philippe Seguin
(à esquerda).

Desde janeiro de 2007, por ocasião do bicentenário do Tribunal de Contas, destaca-se, sobre a abóbada da imensa galeria-biblioteca, o audacioso afresco do artista contemporâneo Bernard Venet, intitulado “Saturações” e feito de equações matemáticas. Nessa instituição, com efeito, os magistrados não temem a “saturação” dos números, pois seu papel é justamente assegurar-se do bom emprego dos fundos públicos e reprimir eventuais irregularidades contábeis que possam ser encontradas durante as investigações e os controles.

Quanto a isso, o Tribunal de Contas não perdeu em nada suas antigas prerrogativas. Em 1807, Napoleão I constatou que, mesmo sendo Imperador, sobre o funcionamento real das finanças de seu império, tinha conhecimento apenas do que queriam que ele soubesse; teve, assim, a idéia de criar uma “instituição financeira que o informasse sobre a gestão dos bens públicos, permitindo-lhe assim fazer um controle”.

Instalado atualmente em um antigo convento de Paris, o Tribunal de Contas, também conhecido como Palais Cambon, é formado por cerca de 650 pessoas – magistrados e pessoal administrativo – e dispõe, para seu funcionamento, de sete câmaras, cada uma dedicada a um setor de atividade e um setor geral dedicado a averiguar a execução das leis.

Dever de eficiência e transparência

Alta instância da República Francesa, o Tribunal de Contas é, sem dúvida, a jurisdição administrativa por excelência, responsável pela garantia do estado de direito, pois é independente dos poderes políticos e econômicos[1]. Mas, como explica Philippe Seguin, primeiro presidente da corte, “se o Estado de direito implica necessariamente o respeito às regras constitucionais e às liberdades fundamentais, ele requer clareza nas contas e rigor na gestão do bem público. O Estado deve à Nação e a seus cidadãos a transparência nas modalidades de recolhimento das contribuições que lhe são impostas e no modo como elas são empregadas”.

Suas principais missões: controlar a gestão de administrações, órgãos públicos ou para-públicos nacionais e de algumas instituições privadas, analisar as contas dos contadores públicos e aprovar as contas do Estado e do regime geral de Seguridade Social[2]… Deve também prestar assistência ao Parlamento e ao governo pois, longe de sancionar ou “alfinetar” algumas derivas financeiras, notadamente em seu relatório anual, o Tribunal de Contas age como alavanca de reformas, avaliando o funcionamento das administrações, inclusive os ministérios, levando-os a gerir os gastos de maneira mais eficaz e transparente.


Abertura internacional

Além disso, o Tribunal de Contas se distingue por uma longa tradição de abertura para o exterior. Associado desde 1950 às Instituições Superiores de Controle (ISC)[3] – atores independentes dos poderes a serviço dos Estados e organismos internacionais – , ele tem um papel ativo no seio de estruturas de controle das contas européias e mundiais e exerce também, desde julho de 2001, com seus homólogos da república da África do Sul e das Filipinas, o comissariado das contas da ONU e, desse modo, de um conjunto de organizações como o Unicef, o Alto Comissariado dos Refugiados, a Corte Internacional de Justiça, etc. Entre outros de seus mandatos, destacam-se também a Unesco e a Organização Internacional da Francofonia (OIF).

Da mesma forma, desde a primeira missão de perícia realizada em 1952 a pedido do Ministério das Finanças da Bolívia, ele continua apoiando Estados que desejem estudar o modelo francês e seu papel de perícia no quadro de ações de cooperação e de formação, sobretudo aos países francófonos (758 dias de formação em 2006). Em 2000, participou, assim, da criação do Instituto de Administração Pública no Líbano e coopera há tempos com a República dos Camarões, o Níger, o Senegal, o Marrocos e Madagascar. Mais recentemente, o Tribunal criou novas parcerias, como com a Indonésia, com o intuito de contribuir para a boa governança financeira dos Estados.

Longe de estar voltado para o passado, o bicentenário é uma oportunidade para o aprofundamento da reflexão sobre os trabalhos do Tribunal e ir ao encontro dos chefes de instituições estrangeiras. Como em Marselha, em junho de 2006, durante um colóquio internacional que reuniu países francófonos e da bacia mediterrânea, ou em Paris, em setembro do mesmo ano, durante um encontro dedicado ao papel do Tribunal na reforma e na melhoria da eficiência da ação pública.

A obra da coleção « Découvertes », publicada pela Gallimard, sobre o Tribunal de Contas.


Vários projetos acontecem neste ano de comemoração: projetos audiovisuais, publicações, um concurso aberto a estudantes sobre finanças públicas, etc. O objetivo: informar a população sobre as jurisdições financeiras, cujo trabalho é fundamental para a democracia e para o debate público, sobretudo em um mundo globalizado.

Mélina Gazsi, jornalista


Para saber mais:

Cour des comptes - Palais Cambon - 13, rua Cambon - 75001 Paris
www.ccomptes.fr

O modelo francês e o modelo anglo-saxão

O tribunal de Contas nasceu de um sistema de controle implementado na Idade Média na França pelos Duques de Normandia, que o exportaram em seguida para a Inglaterra. Hoje, entretanto, os sistemas são muito diferentes. O Tribunal de Contas francês é independente do Executivo e do Parlamento e seus membros são magistrados vitalícios. Na qualidade de jurisdição, ele pode punir pelos erros de gestão. No sistema anglo-saxão, em que essa função jurisdicional não existe, a instituição de controle está ligada ao Parlamento, a quem encaminha seus relatórios. Entretanto, o sistema francês e o sistema britânico têm em comum o acompanhamento da gestão (auditoria) e a aprovação dos gastos públicos.

[1].Sua independência foi garantida na Constituição de 2001.

[2]. Sistema de previdência que dá cobertura a trabalhadores e suas famílias contra diferentes riscos sociais (doença, desemprego, acidentes de trabalho, velhice, etc.)

[3]. Em 1994, foi criada a Associação das Instituições Superiores de Controle que têm em Comum o Uso do Francês, a l’AISCCUF.