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Emmanuel Carrère, o escritor da obsessão

Emmanuel Carrère tem passado a integrar o seleto grupo dos escritores franceses de renome e seu último livro, “Un Roman Russe”, grande sucesso literário da primavera de 2007, é prova disso. Livro esse que esclarece com uma nova luz o conjunto de sua obra, na qual sempre se destaca o tema da loucura.

Emmanuel Carrère provou, aos 50 anos, que está entre os melhores autores franceses da atualidade. Na primavera de 2007, publicou “Un Roman Russe”(Um Romance Russo, editora P.O.L., Paris) seu primeiro texto francamente autobiográfico, no qual nos entrega as chaves de sua obra, uma das mais singulares dos últimos vinte anos na França. O texto trata de dois anos decisivos na vida do escritor, quando segredos de família, não ditos e omissões atingem sua própria intimidade e de como este livro conseguiu, finalmente, libertá-lo.

Em 2003, Emmanuel Carrère foi filmar um documentário em uma pequena cidade siberiana. O assunto do documentário é a reaparição de um prisioneiro russo encontrado em um hospital, cinqüenta anos após o término da Segunda Guerra Mundial, esquecido por todos. Essa viagem, que o reaproximou de suas raízes russas do lado materno – sua mãe, Hélène Carrère d’ Encausse, é membro da Academia Francesa e pesquisadora –, também reavivou nele a história do avô materno, misteriosamente desaparecido durante a Segunda Guerra Mundial e suspeito de colaborar com a ocupação nazista.

Com o passar dos meses, Un Roman Russe torna-se a história de um homem (o próprio autor) ausente de sua vida, até mesmo da relação com a mulher que ama, por ter sido atingido pela ausência fundadora de sua existência, a do seu avô, personagem mortífero fracassado e amargo, que remói suas derrotas e sua incapacidade de ter um destino à altura de suas ambições.

A partir desta experiência que se transformou em livro e do confronto do autor com as tendências depressivas e autodestruidoras herdadas do avô, Emmanuel Carrère consegue expurgar a fatalidade da família. Liberado deste pesado segredo, que causou vergonha e infelicidade a várias gerações (um primo seu se suicidou na mesma época em que o autor escrevia a obra), Carrère compreende enfim a origem de suas falhas e, finalmente, libera-se de sua obsessão pelo horror.

Identidade problemática

Seus outros romances já eram assombrados por esta lacuna na memória da família: especialmente o grande sucesso do escritor, O Adversário (2000), adaptado duas vezes para o cinema, que conta a história verdadeira de um grande ausente e mentiroso patológico, Jean-Claude Romand, que, para fugir da realidade, finge para a própria família, durante cerca de vinte anos, ser médico quando, na verdade, vive de pequenos roubos; acabando, finalmente, por assassinar de modo selvagem seus familiares...

Emmanuel Carrère sempre foi fascinado pela irrupção do estranhamento, da loucura no cotidiano. Em 1986, em seu romance O Bigode (cuja versão para o cinema, realizada em 2005, foi dirigida por ele, com Vincent Lindon e Emmanuelle Devos no elenco); um homem raspa o bigode e se dá conta de que as pessoas próximas não percebem a mudança. Elas dizem a ele, simplesmente, que ele nunca usou um bigode. Ele é louco? Ninguém o conhecia?

É essa questão paranóica da loucura levada à obsessão que está na origem do gesto literário de Carrère. É de forma totalmente coerente que ele escreve, em 1993, Je suis vivant et vous êtes mort (Eu estou vivo e você está morto), biografia de um autor de ficção científica que admira, Philip K. Dick, o escritor da paranóia por excelência.

Nesse registro do cotidiano abalado pelo mais insano e angustiante estranhamento, Emmanuel Carrère segue com Férias na Neve (Prêmio Femina 1995, que será adaptado para o cinema por Claude Miller), em que narra os medos de uma criança obcecada por um sentimento de culpa que, aos poucos, compreendemos ser relacionado ao pai.

Atualmente, Emmanuel Carrère dedica-se à atividade de roteirista, principalmente para a televisão. Desde que terminou o último livro, sua vida está mais apaziguada e ele teve uma filha com a mulher que ama.

Nelly Kapriélian jornalista da revista semanal “Les Inrockuptibles”