| A
grande entrevista : Bernard Kouchner, ministro
das Relações Exteriores e Européias.
"Já
avançamos em alguns aspectos"

Uma
diplomacia fundada na iniciativa, no respeito
e no diálogo. Assim que foi nomeado
à frente do Ministério das Relações
Exteriores e Européias, Bernard Kouchner
retomou o processo de mobilização
internacional na crise do Darfur.
Novo ministro das Relações
Exteriores – e Européias –
desde junho de 2007, Bernard Kouchner discute
o novo papel que a França deve desempenhar
diante dos múltiplos desafios que a
comunidade internacional enfrenta.
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Durante
suas viagens ao Líbano ou no
encontro entre responsáveis libaneses
de julho de 2007 em Celle Sait-Cloud,
perto de Paris, o ministro insistiu
na importância do papel da sociedade
civil no debate político e reiterou
a disposição da França
de manter o diálogo entre as
diferentes partes.
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« Serei julgado
pelos meus resultados » foi
o que o senhor escreveu no dia de
sua nomeação. Passados
seis meses, qual é o primeiro
balanço de sua ação?
Evidentemente, é
muito cedo para tirar conclusões.
A diplomacia é um campo cuja
complexidade é análoga
à complexidade do mundo, lugar
onde os processos obedecem a regras
e temporalidades bem específicas.
Como sempre, há muito para
se fazer. Porém, parece-me
que já conseguimos avançar
em alguns aspectos...
A que áreas
o senhor se refere?
A Europa,
certamente, que se pôs em marcha
graças ao tratado simplificado
imaginado pelo Presidente da República
e implementado durante a presidência
alemã da União.
Também
há o Líbano, o Darfur,
o Iraque, lugares onde estabelecemos
as primeiras balizas de um método
baseado na confiança, no respeito,
no diálogo. De um modo geral,
notamos um novo espírito, encarnado
em primeiro lugar pelo Presidente
da República, uma França
que retoma gosto pelo avanço,
que se mostra fiel a sua história,
a seus valores, aos direitos humanos
e também a suas alianças.
Isto tudo desenha, modestamente, uma
nova maneira de fazer as coisas.
O senhor já
disse que o ministro das Relações
Exteriores deveria ser o ministro
de uma globalização
positiva: como devemos compreender
a frase?
Vemos com
clareza que um dos problemas da globalização
é a falta ou a insuficiência
de regras comuns, a falta de controle
democrático no que tange aos
principais temas do planeta. Se desejamos
que os povos tenham confiança
na globalização, devemos
construir um multilateralismo mais
eficiente.
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| Para
tanto, devemos fortalecer as estruturas
internacionais, especialmente a principal
delas: a ONU (Organização
das Nações Unidas). É
preciso consolidar os progressos alcançados
desde 2000, sob a liderança de
Kofi Annan. Penso no Conselho de Segurança:
é necessário ampliá-lo.
Sua composição deve levar
em conta as atuais grandes potências
e as potências emergentes: Alemanha,
Brasil, Índia e Japão
deveriam entrar nesse Conselho. Grandes
conjuntos geográficos, especialmente
a África, deveriam ter um papel
maior. Disso depende a legitimidade
do Conselho, e a legitimidade de toda
a ONU.
Outro problema é a falta de regulamentação
no que tange ao desenvolvimento sustentável.
Isso já é um consenso,
tanto no norte quanto no sul, notadamente
para o meio ambiente, em que a falta
de um sistema de governança eficiente
põe em risco a implementação
dos acordos e soluções
já negociadas.
Da mesma forma, nas instâncias
financeiras, os instrumentos existentes,
como o FMI [Fundo Monetário Internacional],
têm a legitimidade contestada
por alguns países do Sul, que
sentem não ter um lugar ou influência
dignos de sua importância. No
FMI, para nós e também
para seu novo diretor-geral, Dominique
Strauss-Kahn, o mais importante será
a discussão da reforma e a ampliação
do sistema. Conselho de Segurança,
desenvolvimento sustentável,
FMI: três exemplos nos quais a
França tem um papel a desempenhar
para tornar a globalização
mais justa.
Para
tornar a globalização
mais justa, o desenvolvimento é
necessário... Como o senhor concebe
uma política eficiente para este
tema?
O
desenvolvimento é, primeiramente,
uma questão de meios: temos como
objetivo – razoável –
de atingir finalmente a cifra de 0,7
% do PIB dedicado ao desenvolvimento
até 2015. |

“O
espírito de concórdia
significa estar pronto, no Iraque,
como desejei, a levar nossa contribuição
para a reconstrução
desse país”, declarou
Bernard Kouchner em outubro de 2007
perante os embaixadores dos países
árabes na França.
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Mas não
se pode mais falar de desenvolvimento
sem abordar as outras faces da vida
das sociedades: além da dimensão
econômica apenas, a saúde,
a educação, o meio ambiente
devem ser levados em conta... Por
essa razão não podemos
nos limitar a uma visão estritamente
financeira, a uma lógica de
caixa. É necessário
chegar a uma lógica de projeto,
associando todos os atores aqui e
ali: instituições, coletividades,
empresas, universidades e até
mesmo equipes constituídas
com a finalidade de chegar a objetivos
concretos, localmente. O Estado não
pode tudo, e o melhor modo de estimular
a democracia local na África
é fazê-lo juntamente
com as coletividades locais francesas...
Gostaria também
de destacar a importância de
se dar mais responsabilidade aos destinatários,
para uma melhor eficiência do
desenvolvimento sustentável:
é a eles que compete, em primeira
instância, encontrar as receitas
melhor adaptadas às suas sociedades
e nós, em seguida, deveremos
apoiar e acompanhar esses programas
nacionais.
A França
ocupará, em 2008, a presidência
da União Européia. Quais
serão as grandes iniciativas
dos seis meses em que a Europa estará
na hora francesa?
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Partidário
de um multilateralismo eficaz, o ministro
francês deseja fortalecer o papel
das estruturas internacionais e, em
primeiro lugar, a ONU. Ao lado, com
o atual secretário-geral da ONU,
Ban Ki-Moon.
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Se a Europa realmente
acompanhar a hora francesa, a França
- e esse é meu desejo - deverá
acompanhar a hora européia.
Queremos aproveitar esta ocasião
para mais uma vez colocar a França
e os franceses no coração
do dinamismo europeu. É certo
que este dinamismo nascerá
do novo tratado. A nós caberá
a implementação das
inovações institucionais
nele previstas: presidência
estável do Conselho Europeu,
alto representante para as relações
exteriores e política de segurança,
serviço exterior comum, novas
regras no campo da justiça,
cooperação estruturada
em matéria de defesa, etc...
Queremos também,
além desse trabalho institucional,
tratar das prioridades relativas às
políticas do futuro da União:
energia, desenvolvimento sustentável,
retomada da defesa européia,
imigração, luta contra
a pobreza.
Seu primeiro compromisso
internacional ocorreu em 1968, em
Biafra. Em quarenta anos o senhor
já organizou e conduziu missões
humanitárias em todos os continentes,
foi alto representante das Nações
Unidas no Kosovo, várias vezes
ministro... Se tivesse que escolher
apenas uma dessas ações,
qual seria?
Uma ação
que não é propriamente
minha, porém à qual
creio não ter sido totalmente
estranho: o reconhecimento pela ONU
do direito de ingerência, sob
o nome de “responsabilidade
de proteger”.
Após as
primeiras resoluções
nesse sentido, que a França
tinha submetido à votação
na Assembléia Geral a partir
de 1988, sob meu comando e graças
ao apoio do então Presidente
da República, François
Mitterrand, a inscrição
do direito de ingerência na
declaração da Cúpula
Mundial de 2005 foi o resultado vitorioso
de longos combates.
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Hoje já é
admitido pelo conjunto da comunidade
internacional que os massacres e violações
dos direitos humanos não podem
mais se abrigar atrás de fronteiras.
É claro que nada nunca é
fácil, como bem demonstra o
caso do Darfur. Assim como em outros
lugares, são necessários
tempo e perseverança para se
passar do direito aos fatos. Os textos,
entretanto, já existem.
O livro é
o tema do dossiê deste número
de Label France. Qual é, no
seu entender, o papel do livro na
influência e no brilho da França?
O livro está
no centro de nossa ação
cultural e de cooperação.
Em vinte anos, graças a um
programa específico (PAP),
o Ministério das Relações
Exteriores contribuiu para a tradução
de 12.000 obras em 75 países,
constituiu uma rede de 400 midiatecas
e conduz uma política forte
em favor do desenvolvimento da leitura.
Creio que o livro
é o emblema de uma política
de influência e prestígio
que se preocupa com o conteúdo
e seus vetores. São nossas
idéias, nossa língua,
nossa cultura que desejamos promover.
Para tanto, é necessário
conduzir políticas enérgicas
junto à mídia: o livro,
é claro, mas também
as novas tecnologias, ou o audiovisual
no exterior, cuja reforma é
uma de minhas prioridades.
Queremos apoiar
também o pensamento e a criação
franceses: isto é feito por
meio de nossas embaixadas e centros
culturais. É também
o papel de Label France, não
é?
Entrevista
realizada pela redação
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