Ministério das Relações Exteriores

 

 

Tradução, cruzamento dos imaginários

L´Immeuble Yacoubian (O Edifício Yacoubian), do egípcio Alaa El Aswany, traduzido do árabe por Gilles Gauthier e e publicado pela editora Actes Sud (2006), foi um grande sucesso de vendas na França.

 

 

 

Simone Manceau, tradutora de letras indianas na editora Picquier – especialista em Ásia – permitiu com que os leitores franceses conhecessem vários autores contemporâneos do subcontinente, entre eles Amit Chaudhuri e Radhika Jha.

Pouco conhecidos pelo público, os tradutores têm um papel essencial na descoberta de outras culturas e novos universos.

À pergunta: “Como construir a Europa das culturas?”, o escritor holandês Cees Nooteboom respondia, nos anos 90, que muito além das querelas dos homens e das fronteiras, os personagens dos grandes romances haviam entretecido elos indestrutíveis. Dom Quixote vive em perfeita harmonia com Gargantua, Robinson Crusoé, Simplicissimus, Pinocchio, a Pequena Sereia, e muitos outros heróis e heroínas de papel e de tinta, que nos acompanham e sobrevivem há séculos. Ora, foi graças aos tradutores que os grandes textos circularam tão rapidamente de uma língua para outra e acabaram por impregnar os diferentes imaginários. A tradução está para a literatura como a interpretação musical para a partitura: uma leitura. E, como tal, uma forma de recriação.

Com bastante freqüência, o tradutor é atualmente suspeito de infidelidade. As recentes e tão diferentes traduções de Kafka em francês por Bernard Lortholary e Georges-Arthur Goldschmidt problematizaram aquela mais tradicional e histórica de Alexandre Vialatte, enquanto a nova tradução de Dostoievski por André Markowicz suscitou muita polêmica. Falta de confiança dos leitores? É também uma manifestação do espírito da época e fenômeno de moda. Como todo mundo sabe, a moda sai de moda. Falamos então do envelhecimento de uma tradução como se o próprio original escapasse aos ultrajes do tempo.

Transportadores culturais

Para a literatura mais atual, o papel dos tradutores é fundamental. Bem mais que os editores, que “levarão” os textos traduzidos, os tradutores são as cabeças pensantes mais confiáveis e também são os verdadeiros descobridores. Não fosse suas curiosidade, obstinação e dedicação, a literatura estaria órfã e estreitamente confinada a nossas fronteiras.

Seria necessário citar aqui uma extensa lista de nomes apenas vistos de relance na contracapa dos livros e amiúde esquecidos das resenhas da imprensa. Estes pacíficos soldados da sombra, cujo sobrenome está sempre em letras minúsculas, jamais cessam de enriquecer nosso patrimônio cultural. Um dos mais célebres tradutores descobridores, hoje falecido e que empresta seu nome a um prêmio de tradução, é Maurice-Edgar Coindreau. Este jovem professor de espanhol enviado aos Estados Unidos como leitor lê apaixonadamente os novos autores americanos, entre os quais William Faulkner... cuja tradução propôs à editora Gallimard. Faulkner tornou-se uma referência para toda uma geração de escritores franceses.

Facilitar o encontro dos pensamentos do mundo

Depois da timidez dos anos 60, os editores franceses se abriram novamente aos imaginários do mundo. A literatura estrangeira, hoje, é um dos principais motores da edição francesa. Traduzimos em todas as latitudes, de todas as línguas. É necessário sublinhar que o apoio à tradução pelo Centro Nacional do Livro (CNL) e o Ministério das Relações Exteriores muito favoreceram essa descoberta de outros universos.

Muito antes que o termo globalização viesse à tona, discretamente a tradução se empenhava em promover o encontro dos imaginários e pensamentos do mundo. E hoje, mais que nunca, prossegue com essa função de transportador cultural. Como o deus Hermes da mitologia grega, ela é a rainha das encruzilhadas.

* Michèle Gazier é escritora, tradutora e crítica literária. Seu último livro publicado é Un Soupçon d’Indigo (Uma Pitada de Índigo), editora du Seuil, Paris, 2007.

 

Os romances da Prêmio Nobel de Literatura de 2007, Doris Lessing, foram traduzidos do inglês a partir dos anos 70 e fizeram grande sucesso na França.

 


Alguns números

Qual a língua mais traduzida pelos editores franceses? Dois terços das traduções, em todos os gêneros, são do inglês. No ano de 2005, segundo o Sindicato Nacional da Edição (SNE), foram 808 obras publicadas, em proporções equivalentes às dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha. Em seguida, estão os livros japoneses (110 títulos, dos quais 99 são as histórias em quadrinhos manga), os alemães (71 títulos), os italianos, espanhóis e holandeses.

O gosto dos editores franceses pela produção estrangeira parece, no entanto, estar diminuindo. Foram traduzidos, em 2005, 1.191 títulos, 383 dos quais obras literárias e um número equivalente de obras infanto-juvenis. Em 2004, foram 1.404. Para cada título estrangeiro comprado, são vendidos no mundo cinco títulos franceses.

M. G.


Arles, centro de tradução literária

Para romper com o isolamento de seu trabalho e defender seu estatuto e sua profissão, os tradutores fundaram em 1973 a Associação dos Tradutores Literários da França (ATLF), que hoje conta com cerca de 700 membros em 45 línguas. Em 1984, a ATLF, por sua vez, criou as Assises de la Traduction e o Colégio Internacional de Tradutores Literários (CITL), localizado em Arles e dirigido por Françoise Cartano, tradutora do inglês. O CITL dispõe de uma residência, que recebe tradutores desejosos de se beneficiar da calma do lugar e do encontro e diálogo com seus colegas e com autores. O preço da estada é modesto: 15 euros ao dia. Bolsas e ajudas podem eventualmente ser atribuídas aos residentes. Dentre as reuniões promovidas pelo centro, uma das mais criativas é aquela que reúne um escritor com seus tradutores através do mundo. As Assises de la Traduction Littéraire são, todo ano, objeto de publicação em colaboração com a editora Actes Sud. A revista Translittérature, editada com a ATLF é testemunha da curiosidade e da busca dos tradutores literários.

M. G.

Para saber mais:
www.atlas-citl.org/fr
www.atlf.org